Uma comporta sob a ferrovia: o rompimento que matou pelo menos 71 pessoas em uma madrugada no Quênia
Foto: Gerald Anderson/Anadolu via Getty Images — da matéria da CNN Brasil Na madrugada de 29 de abril de 2024, uma comporta instalada sob uma ponte ferroviária cedeu em Mai Mahiu, cidade a 32 km ao norte de Nairóbi, capital do Quênia, liberando de uma só vez um volume de água que arrasou casas construídas […]
29 ABR 2024

Foto: Gerald Anderson/Anadolu via Getty Images — da matéria da CNN Brasil
Na madrugada de 29 de abril de 2024, uma comporta instalada sob uma ponte ferroviária cedeu em Mai Mahiu, cidade a 32 km ao norte de Nairóbi, capital do Quênia, liberando de uma só vez um volume de água que arrasou casas construídas ao longo do vale. O rompimento matou ao menos 71 pessoas somente naquela localidade, deixou 110 hospitalizadas e elevou para mais de 103 o número de mortos no país desde o início das chuvas, em março. O episódio é o ponto mais grave de uma temporada de chuvas torrenciais que, associada ao fenômeno El Niño e ao Dipolo do Oceano Índico, atingiu toda a África Oriental: um balanço de maio contabilizou pelo menos 473 mortos e 1,6 milhão de pessoas afetadas em Quênia, Tanzânia, Burundi e Somália.
A tragédia de Mai Mahiu expôs a fragilidade da infraestrutura que deveria conter — não potencializar — o volume de água represado pelas chuvas. A estrutura que rompeu funcionava como uma espécie de comporta erguida sob a linha férrea que corta a cidade, e sua ruptura transformou uma enchente já grave em uma onda repentina que arrastou construções inteiras rio abaixo. “Estamos tentando controlar a situação, mas é um pouco opressora”, declarou a governadora do condado de Nakuru, Susan Kihika, região onde fica Mai Mahiu, ao descrever os esforços de resgate em meio ao caos. O porta-voz do governo queniano, Isaac Maigua Mwaura, confirmou o total de mais de 100 mortos e milhares de desabrigados desde março, reconhecendo a escala nacional da crise que já se estendia havia semanas antes do colapso da estrutura.
Para a defesa civil municipal brasileira, o episódio de Mai Mahiu funciona como um alerta direto: obras de infraestrutura — pontes, comportas, bueiros, pequenas barragens — não são elementos neutros diante de uma chuva forte, são parte da equação de risco. Uma estrutura subdimensionada, mal inspecionada ou construída sem considerar o volume de água que pode se acumular a montante pode transformar um evento climático extremo, mas gerenciável, em uma tragédia com dezenas de mortos concentrados em poucos minutos. Municípios brasileiros com pontes, viadutos ou pequenos reservatórios sobre cursos d’água que cruzam áreas povoadas precisam tratar a inspeção estrutural periódica dessas obras como parte da rotina de defesa civil, e não como responsabilidade exclusiva do órgão que as construiu — como o próprio caso do sistema de diques de Porto Alegre, no mesmo ano, viria a demonstrar.
“Estamos tentando controlar a situação, mas é um pouco opressora” — Susan Kihika, governadora do condado queniano de Nakuru, resumindo a resposta emergencial em Mai Mahiu horas após o rompimento da comporta que matou pelo menos 71 pessoas.”
Fontes
- CNN Brasil — “Rompimento de barragem e fortes chuvas no Quênia deixam ao menos 71 mortos” — 29/04/2024 — https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/rompimento-de-barragem-e-fortes-chuvas-no-quenia-deixam-mortos/
- Agência Brasil — “Chuvas na África deixam pelo menos 473 mortos e 1,6 milhão de afetados” — 2024-05 — https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2024-05/chuvas-na-africa-deixam-pelo-menos-473-mortos-e-16-milhao-de-afetados