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Internacional

Um terço do Paquistão debaixo d’água: monção de 2022 mata mais de 1.265 e reabre debate sobre justiça climática

Foto: Fareed Khan/AP — da matéria da Al Jazeera A monção que começou em meados de junho de 2022 no Paquistão se transformou, ao longo de agosto, em um dos piores desastres climáticos do século. As quatro províncias do país — Sindh, Balochistão, Punjab e Khyber Pakhtunkhwa — foram atingidas, com Sindh e Balochistão sofrendo […]

03 SET 2022
Um terço do Paquistão debaixo d’água: monção de 2022 mata mais de 1.265 e reabre debate sobre justiça climática
Moradores retiram pertences de casa alagada em Jaffarabad, na província paquistanesa de Balochistão

Foto: Fareed Khan/AP — da matéria da Al Jazeera

A monção que começou em meados de junho de 2022 no Paquistão se transformou, ao longo de agosto, em um dos piores desastres climáticos do século. As quatro províncias do país — Sindh, Balochistão, Punjab e Khyber Pakhtunkhwa — foram atingidas, com Sindh e Balochistão sofrendo os danos mais severos. Em 25 de agosto, o balanço já superava 900 mortos, incluindo 326 crianças, segundo a CNN Brasil. Uma semana depois, em 3 de setembro, a Autoridade Nacional de Gestão de Desastres (NDMA) elevou o número para 1.265 mortos, entre eles 441 crianças, conforme divulgado pela Al Jazeera — balanço que, nas semanas seguintes, ultrapassaria 1.700 óbitos. Ao todo, 33 milhões de pessoas foram afetadas, quase 15% da população do país; mais de 1 milhão de casas foram danificadas e 95.350 completamente destruídas, quase 3.000 km de estradas ficaram inutilizados e 129 pontes foram derrubadas pela força da água, segundo a ClimaInfo. As perdas econômicas foram estimadas inicialmente em US$ 10 bilhões.

“Nunca vi uma enchente assim na minha vida pessoal e profissional. Os quatro cantos do Paquistão estão debaixo d’água”, declarou o primeiro-ministro Shehbaz Sharif, ao pedir que todos se juntassem aos esforços de resgate. A ministra do Clima do país, Sherry Rehman, resumiu a sensação de país em estado de emergência permanente: “estamos no marco zero de eventos climáticos extremos, em uma cascata implacável de ondas de calor, incêndios florestais, enchentes repentinas, explosões de lagos glaciais, inundações e agora esta monstruosa monção da década”. Rehman descreveu a chuva como “de proporções bíblicas”, citando que a megacidade de Karachi recebeu 400mm em poucas horas — um volume para o qual nenhuma infraestrutura urbana estava preparada. Já o chanceler Bilawal Bhutto-Zardari resumiu o choque da devastação: “é algo avassalador. Espero que não apenas o FMI, mas a comunidade internacional e as agências internacionais realmente compreendam o nível da destruição”. Em visita ao país em 9 de setembro, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu ao mundo que parasse de “sonâmbulo” diante da crise climática.

O caso paquistanês se tornaria, meses depois, o símbolo central do debate sobre “perdas e danos” (loss and damage) que dominaria a COP27, em novembro de 2022 — o país emite apenas cerca de 1% das emissões globais de CO2, mas está entre os mais vulneráveis a eventos climáticos extremos. Para gestores municipais brasileiros, a lição não é sobre financiamento internacional, mas sobre dimensionamento de infraestrutura: os 400mm de chuva em poucas horas que alagaram Karachi são o tipo de volume “fora do padrão histórico” que sistemas de drenagem urbana projetados décadas atrás, no Brasil como no Paquistão, simplesmente não foram feitos para escoar — reforçando a urgência de planos diretores de drenagem atualizados com cenários climáticos futuros, e não apenas com séries históricas de chuva já defasadas.

“Estamos no marco zero de eventos climáticos extremos, em uma cascata implacável de ondas de calor, incêndios florestais, enchentes repentinas, explosões de lagos glaciais, inundações e agora esta monstruosa monção da década — Sherry Rehman, ministra do Clima do Paquistão”

Fontes

  • Al Jazeera — “Pakistan appeals for more aid as flood death toll rises” — 03/09/2022 — https://www.aljazeera.com/news/2022/9/3/pakistan-appeals-for-more-aid-as-flood-death-toll-rises
  • CNN Brasil — “Chuvas no Paquistão deixam mais de 900 mortos, incluindo 326 crianças” — 25/08/2022 — https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/chuvas-no-paquistao-deixam-mais-de-900-mortos-incluindo-326-criancas/
  • ClimaInfo — “Enchentes históricas deixam mais de mil mortos no Paquistão” — 29/08/2022 — https://climainfo.org.br/2022/08/29/enchentes-historicas-deixam-mais-de-mil-mortos-no-paquistao/
  • Observatório do Clima — “Enchentes no Paquistão já desalojam 2 milhões” — https://www.oc.eco.br/enchentes-no-paquistao-ja-desalojam-2-milhoes/