“Saiam imediatamente dos leitos de rio”: a semana em que a monção paquistanesa acelerou sua conta de mortes
A semana de 13 a 19 de julho foi a da virada na monção paquistanesa: as chuvas se intensificaram sobre Khyber Pakhtunkhwa, Punjab, Azad Kashmir e Baluchistão, e a curva de mortes acelerou — o balanço consolidado da autoridade nacional de desastres (NDMA), divulgado logo após a semana e reportado pelo Arab News, chegaria a […]
20 JUL 2026

A semana de 13 a 19 de julho foi a da virada na monção paquistanesa: as chuvas se intensificaram sobre Khyber Pakhtunkhwa, Punjab, Azad Kashmir e Baluchistão, e a curva de mortes acelerou — o balanço consolidado da autoridade nacional de desastres (NDMA), divulgado logo após a semana e reportado pelo Arab News, chegaria a 72 mortos desde 26 de junho (41 em KP, 19 no Punjab), com 15 mortes em KP e 9 no Punjab em apenas 24 horas do pico. As causas de sempre: desabamento de casas e muros, enxurradas, raios, eletrocussão e afogamento. Cheias foram registradas nos pontos de controle de Kalabagh, Chashma, Marala, Qadirabad e Khanqi, e o serviço de resgate 1122 operou em modo contínuo.
No meio dos boletins, uma frase de autoridade que vale o radar da semana, dita pelo diretor-geral da agência provincial de desastres do Punjab, Umar Abbas Meela: “Os cidadãos que vivem nos leitos de rio devem se mudar imediatamente para lugares mais seguros.”
A frase é notável pelo que revela: a autoridade sabe onde as pessoas vão morrer. “Leitos de rio” não é metáfora — é o endereço conhecido, mapeado e ocupado das próximas vítimas. O mesmo vale para as causas listadas nos boletins: casas que desabam já eram identificáveis como frágeis; a eletrocussão urbana em área alagada é morte de infraestrutura precária, não de clima. A monção paquistanesa mata, majoritariamente, em locais e modos previsíveis — e é exatamente essa previsibilidade que transforma o problema de meteorológico em fundiário, habitacional e de fiscalização.
Para o Brasil, onde a ocupação de várzeas, encostas e faixas marginais de córregos segue sendo a principal fábrica de vítimas da estação chuvosa, o espelho é desconfortável: o aviso de “saia do leito do rio” repetido a cada chuva é a confissão de que, entre uma chuva e outra, ninguém tirou as pessoas de lá. A remoção definitiva com alternativa habitacional digna, o congelamento de novas ocupações e a fiscalização contínua são as políticas lentas que aposentam o alerta de última hora — o único alerta que de fato se deseja emitir cada vez menos.
“Quando o aviso diz ‘saiam do leito do rio’, a gestão confessa que sabe o endereço da próxima tragédia.”
Fontes
- Arab News — “Pakistan monsoon death toll rises to 72 as rains batter Punjab, KP provinces” — 22/07/2026 — https://www.arabnews.com/node/2651843/pakistan
- Pakistan Today — “Pakistan Monsoon Toll Hits 72 as Punjab, KP Flood Risk Grows” — 22/07/2026 — https://www.pakistantoday.com.pk/2026/07/22/nationwide-monsoon-death-toll-climbs-to-72-as-relentless-rains-batter-punjab-kp
- Xinhua — “15 killed, 40 injured as heavy rains, flash floods wreak havoc in Pakistan” — 23/07/2026 — https://english.news.cn/20260723/4d38c3f6d9294bb48ab7eb4b9f1233c2/c.html