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Internacional

O risco estava mapeado desde 2019, o acordo era por WeChat — e com o distrito errado

Foto: Kamal Prasai/OnlineKhabar — imagem da galeria de drone que cobriu Rasuwagadhi, Timure, Dhunche, Mailung, Syafrubesi, Betrabati, Bidur e Trishuli Bazar, publicada pelo OnlineKhabar A pergunta depois de um desastre glacial é sempre a mesma: alguém sabia? Aqui a resposta é documental. Em novembro de 2020, o ICIMOD e o PNUD publicaram o inventário dos […]

28 AGO 2026
O risco estava mapeado desde 2019, o acordo era por WeChat — e com o distrito errado
Vista aérea da destruição no corredor de fronteira de Rasuwagadhi e Timure, no distrito de Rasuwa, Nepal
Foto: Kamal Prasai/OnlineKhabar — imagem da galeria de drone que cobriu Rasuwagadhi, Timure, Dhunche, Mailung, Syafrubesi, Betrabati, Bidur e Trishuli Bazar, publicada pelo OnlineKhabar

A pergunta depois de um desastre glacial é sempre a mesma: alguém sabia? Aqui a resposta é documental. Em novembro de 2020, o ICIMOD e o PNUD publicaram o inventário dos lagos glaciais das bacias Koshi, Gandaki e Karnali: 3.624 lagos catalogados, 47 classificados como potencialmente perigosos — 42 na bacia do Koshi, 31 no Rank I, o nível mais alto — e, dos 47, 25 na Região Autônoma do Tibete, do lado chinês da fronteira. Um ano antes, Zhang e colegas haviam publicado no Journal of Glaciology um estudo sobre a bacia exata deste desastre: o Poiqu, nome chinês do curso que se torna Bhotekoshi ao entrar no Nepal. Os números do artigo, no Cambridge Core, são inequívocos: a área de lagos glaciais na bacia cresceu cerca de 110% entre 1964 e 2017, de 9,7 km² para 20,5 km²; eram 102 lagos em 2017, contra 73 em 1964; e oito, com expansão superior a 150%, foram identificados como perigo de ruptura. Dave Petley resume como esses dados costumam ser lidos: “we systematically under-estimate the risk associated with these events in the Himalaya mountains”.

O risco estava nominado, quantificado e localizado. O que faltava não era informação — era o canal por onde ela atravessa uma fronteira. Em agosto de 2024, o chefe do Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal advertiu publicamente que a China retinha dados essenciais sobre lagos glaciais, pondo em risco comunidades nepalesas de montanha. Em 1º de agosto de 2025 houve um avanço, e ele é pequeno de um jeito que precisa ser lido com atenção: no condado tibetano de Nyalam, autoridades locais chinesas e nepalesas acordaram compartilhar informação sobre risco de ruptura glacial — mas em nível distrital, entre Nyalam e o distrito de Sindhupalchok. Não Rasuwa. Quem assinou pelo lado nepalês, o Superintendente de Polícia Rameshwor Karki, descreveu ao Climate Home News o canal pactuado com todas as letras: “They install an early warning system and provide information to us based on early warning in WeChat and phone calls.” Em maio de 2026, o chanceler Shisir Khanal levou o tema à China e os dois países concordaram em princípio em trocar informação em tempo real sobre cheias e deslizamentos. Nenhum acordo formal foi firmado.

O terceiro bloco transforma isso de lacuna em omissão. Em 2025, o Stimson Center investigou a cheia de Rasuwa de julho daquele ano e recomendou mecanismos robustos de compartilhamento de dados e monitoramento conjunto entre China e Nepal, monitoramento multimodal dos lagos supraglaciais e avaliação multirrisco para hidrelétricas. A cheia que motivou a recomendação ocorrera em 8 de julho de 2025, no mesmo rio: pelo menos 11 mortos, 17 desaparecidos, a Ponte da Amizade de Rasuwagadhi destruída e sete hidrelétricas de cerca de 250 MW danificadas, perto de 8% da geração nacional. Treze meses depois, com o mesmo trecho devastado outra vez, Qianggong Zhang, chefe de Riscos Climáticos e Ambientais do ICIMOD, registrou a repetição: “The same site devastated by last year’s Rasuwa flood is once again under threat.” Entre uma catástrofe e outra, o que mudou institucionalmente foi um acordo distrital, informal, por aplicativo de mensagens, cobrindo o distrito vizinho.

Este é o ângulo mais transferível para o Brasil. Bacias e riscos também cruzam fronteiras administrativas aqui — entre municípios vizinhos, entre estados, e entre países na Amazônia e na bacia do Prata. Um município a jusante de barragem, mineração ou encosta que pertence ao vizinho está na posição de Rasuwa: o risco é do outro, a água é sua. E o arranjo que a maioria dessas prefeituras tem hoje é o de Nyalam — um contato pessoal, um número de celular, um grupo de mensagens que funciona enquanto quem o criou estiver no cargo. A pergunta a levar à equipe é de papel: existe acordo formal de monitoramento e notificação com o município, o estado ou o operador privado que controla a fonte de risco a montante, com ponto focal nomeado, suplente, protocolo escrito e prazo de resposta? Se a resposta for um nome de contato em vez de um documento, não existe alerta possível. Existe um grupo de WhatsApp — e ele vai falhar exatamente no dia em que for necessário.

“Sem acordo formal, ponto focal nomeado e protocolo escrito, não existe alerta entre vizinhos: existe um grupo de WhatsApp”

Fontes

  1. ICIMOD — “New glacial lake inventory report released: 47 potentially dangerous glacial lakes ranked” — 11/11/2020 — https://www.icimod.org/new-glacial-lake-inventory-report-released-47-potentially-dangerous-glacial-lakes-ranked/
  2. Climate Home News — “Nepal and China agree to cooperate on glacial lake flooding as warming hikes threat” — 27/08/2025 — https://www.climatechangenews.com/2025/08/27/nepal-and-china-agree-to-cooperate-on-glacial-lake-flooding-as-warming-hikes-threat/
  3. Stimson Center — “Investigating an Emerging Climate Hazard: Transboundary Glacial Floods on the China-Nepal Border” — 2025 — https://www.stimson.org/2025/investigating-an-emerging-climate-hazard-transboundary-glacial-floods-on-the-china-nepal-border/