O maior desastre climático da história do Brasil: como o Guaíba superou em quase meio metro a marca histórica de 1941
Foto: Nathan Lemos/JC — da matéria do Jornal do Comércio As chuvas começaram em 27 de abril de 2024 no norte do Rio Grande do Sul e, em menos de dez dias, se transformaram na maior catástrofe climática já registrada no Brasil. Em 5 de maio, com o país acompanhando o avanço da água em […]
05 MAI 2024

Foto: Nathan Lemos/JC — da matéria do Jornal do Comércio
As chuvas começaram em 27 de abril de 2024 no norte do Rio Grande do Sul e, em menos de dez dias, se transformaram na maior catástrofe climática já registrada no Brasil. Em 5 de maio, com o país acompanhando o avanço da água em tempo real, o governo federal decretou calamidade pública nacional para o estado, no mesmo dia em que o lago Guaíba atingiu 5,37 metros — superando de vez a marca histórica de 4,75 m de 1941, que resistira por 83 anos. No balanço final consolidado em agosto de 2024, o desastre somou 183 mortos, 27 desaparecidos e entre 2,3 e 2,4 milhões de pessoas afetadas em 471 a 478 municípios, cerca de 95% do território gaúcho — além do rompimento parcial da barragem da usina hidrelétrica 14 de Julho, no rio das Antas, que obrigou evacuação imediata de comunidades a jusante.
Ainda em 1º de maio, quando o balanço somava apenas dez mortes — uma fração do que viria a seguir — o governador Eduardo Leite já antecipava a magnitude do que se desenhava: “O evento atual será o maior desastre climático que o nosso Estado já enfrentou.” Dias depois, com a água ainda subindo e a reconstrução por vir, Leite compararia o esforço necessário ao “Plano Marshall” europeu do pós-guerra. Em Santa Maria, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu o mesmo tom de urgência federal: “não vamos permitir que falte recursos para reparar os danos” — compromisso que se traduziria, semanas depois, na nomeação do deputado Paulo Pimenta como ministro extraordinário dedicado exclusivamente à reconstrução do estado.
A lição de governança central deste episódio é a velocidade da escala: um evento que começa como alerta meteorológico regional em 27 de abril se torna, oito dias depois, um desastre que atinge 95% dos municípios de um estado inteiro — um ritmo de expansão que nenhuma estrutura puramente municipal de defesa civil consegue absorver sozinha. Para gestores municipais, a lição acionável é dupla: primeiro, planos de contingência municipais precisam prever desde o início um protocolo de escalonamento automático para o nível estadual e federal assim que um recorde histórico de referência (como o nível de 1941 do Guaíba) for ultrapassado — não esperar que o pedido de ajuda suba a cadeia depois que a infraestrutura local já colapsou; segundo, a existência de uma autoridade federal única e dedicada à reconstrução (o modelo do ministro extraordinário) deveria ser um gatilho pré-planejado, acionado por critério objetivo de afetados/município, e não uma decisão política tomada semanas depois do pico da crise.
“O evento atual será o maior desastre climático que o nosso Estado já enfrentou” — declaração do governador Eduardo Leite em 1º de maio de 2024, quando o Rio Grande do Sul ainda contava dez mortes e nem imaginava que o número chegaria a 183″
Fontes
- Jornal do Comércio — “Guaíba supera nível da Enchente de 1941 e Porto Alegre vive maior cheia da história” — 04/05/2024 — https://www.jornaldocomercio.com/geral/2024/05/1153163-guaiba-supera-nivel-da-enchente-de-1941-e-porto-alegre-vive-maior-cheia-da-historia.html
- CNN Brasil — “Alagamentos, destruição e 183 mortes: relembre a tragédia das chuvas no RS que marcou 2024” — 18/12/2024 — https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sul/rs/alagamentos-destruicao-e-183-mortes-relembre-a-tragedia-das-chuvas-no-rs-que-marcou-2024/