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Internacional

“Não podemos culpar só a chuva”: o megadesastre asiático que matou mais de 1.100 pessoas e expôs mineração e desmatamento

Foto: Binsar Bakkara/AP — da matéria da CBS News O Ciclone Senyar atingiu o litoral norte de Sumatra, na Indonésia, em 26 de novembro de 2025, e dois dias depois o Ciclone Ditwah fez landfall no Sri Lanka — dando início ao que se tornaria o maior desastre climático do mundo no período. Ao longo […]

24 DEZ 2025
“Não podemos culpar só a chuva”: o megadesastre asiático que matou mais de 1.100 pessoas e expôs mineração e desmatamento
Sobrevivente carrega sacola de itens resgatados em área devastada por enchente repentina em Aceh Tamiang, Sumatra

Foto: Binsar Bakkara/AP — da matéria da CBS News

O Ciclone Senyar atingiu o litoral norte de Sumatra, na Indonésia, em 26 de novembro de 2025, e dois dias depois o Ciclone Ditwah fez landfall no Sri Lanka — dando início ao que se tornaria o maior desastre climático do mundo no período. Ao longo de dezembro, o número de mortos na Indonésia subiu quase ininterruptamente: 830 em 1º/12, 908 em 6/12, 962 em 9/12, 1.016 em 15/12 e 1.112 até 24/12, com 176 desaparecidos, segundo a série diária do governo indonésio (BNPB) compilada pelo Databoks/Katadata. Somando Sri Lanka (618 mortos), Tailândia (276) e Malásia (2), o balanço regional já passava de 1.800 mortos em 9 de dezembro, com mais de 1 milhão de deslocados só na Indonésia, segundo a Al Jazeera. O distrito de Aceh Tamiang, epicentro da tragédia indonésia, viu mais de 260 mil moradores fugirem de casa, segundo a CBS News. Em meio à crise, o ministro do Meio Ambiente da Indonésia, Hanif Faisol Nurofiq, declarou: “identificamos ao menos três fontes principais que agravaram as enchentes: plantações florestais industriais, desenvolvimento massivo de hidrelétricas e atividades de mineração de ouro na bacia do Batang Toru. Tudo isso contribuiu significativamente para a pressão sobre o meio ambiente”, segundo a Mongabay.

O episódio evidencia algo além da magnitude do fenômeno meteorológico: pela primeira vez nesta crise, uma autoridade ambiental de alto escalão atribuiu publicamente parte da responsabilidade por um megadesastre climático a decisões de uso do solo tomadas pelo próprio governo — mineração, hidrelétricas e desmatamento concentrados na mesma bacia hidrográfica que registrou as piores enchentes. A resposta institucional veio rápido, ainda dentro da crise: o Ministério da Floresta suspendeu licenças florestais em 4 de dezembro, e o Ministério do Meio Ambiente suspendeu licenças de mineração e hidrelétrica na bacia do Batang Toru em 6 de dezembro, segundo a Mongabay. Como resumiu o cientista indonésio Eko Teguh Paripurno à mesma reportagem: “não podemos simplesmente atribuir a culpa à chuva ou ao clima” — a análise da capacidade de suporte da paisagem é tão determinante quanto a intensidade da tempestade.

Para municípios brasileiros, a lição de governança central é que licenciamento ambiental e defesa civil raramente conversam entre si — e deveriam: mapas de risco de desastre, como os Planos Municipais de Redução de Riscos, precisam ser cruzados sistematicamente com o cadastro de licenças de mineração, hidrelétricas e supressão de vegetação nas mesmas bacias hidrográficas, em vez de tratados como políticas paralelas conduzidas por secretarias que não trocam dados entre si. Municípios com atividade minerária, hidrelétrica ou desmatamento em encostas ou cabeceiras de rio deveriam ter protocolo formal para reavaliar e, se necessário, suspender licenças em caráter emergencial assim que sinais de instabilidade aparecerem — como fez o governo indonésio, ainda que sob pressão de uma tragédia já em curso e não antes dela. Esperar o desastre acontecer para só então investigar a causa, como ocorreu na Sumatra, custa vidas que uma integração prévia entre meio ambiente e defesa civil poderia ter protegido.

“‘Não podemos simplesmente atribuir a culpa à chuva ou ao clima’ — a frase do cientista indonésio Eko Teguh Paripurno resume o que mineração, hidrelétricas e desmatamento na bacia do Batang Toru tiveram a ver com mais de 1.100 mortes na Sumatra.”

Fontes

  • Databoks/Katadata — “1,112 Dead and 176 Missing due to Sumatra Disaster, December 24, 2025” — 24/12/2025 — https://databoks.katadata.co.id/en/environment/statistics/694b5e77c3245/1112-dead-and-176-missing-due-to-sumatra-disaster-december-24-2025
  • Al Jazeera — “Satellite images show the scale of destruction from Asia floods” — 09/12/2025 — https://www.aljazeera.com/news/longform/2025/12/9/satellite-images-show-the-scale-of-destruction-from-asia-floods
  • Mongabay — “Death toll rises in Sumatra flood catastrophe as govt moves to protect Batang Toru forest” — dezembro/2025 — https://news.mongabay.com/2025/12/death-toll-rises-in-sumatra-flood-catastrophe-as-govt-moves-to-protect-batang-toru-forest/
  • CBS News — “Indonesia floods, landslides disaster in Asia” — 06/12/2025 — https://www.cbsnews.com/news/indonesia-floods-landslides-disaster-asia/