Motores furtados, comportas sem vedação: como o sistema anti-enchente de Porto Alegre falhou bem antes da água chegar
Foto: Dmae/PMPA/Divulgação — da matéria do Poder360 Projetado nos anos 1970 para conter águas de até 6 metros, o sistema de diques, comportas e casas de bomba de Porto Alegre começou a falhar quando o Guaíba ainda estava a 4,5 metros — bem abaixo do limite de projeto. Uma apuração do Poder360 publicada em 12 […]
12 MAI 2024

Foto: Dmae/PMPA/Divulgação — da matéria do Poder360
Projetado nos anos 1970 para conter águas de até 6 metros, o sistema de diques, comportas e casas de bomba de Porto Alegre começou a falhar quando o Guaíba ainda estava a 4,5 metros — bem abaixo do limite de projeto. Uma apuração do Poder360 publicada em 12 de maio de 2024 revelou o motivo: a comporta nº 14 sofreu ruptura completa e levou consigo parte da rodovia construída sobre a estrutura; outras três comportas apresentaram vazamentos graves; e todas as 14 comportas do sistema tinham vedação incompleta entre a estrutura e os muros de contenção, com brechas de até 10 centímetros por onde a água entrava. Das 23 bombas de sucção que deveriam escoar a água represada, apenas quatro funcionaram — as demais foram desligadas por risco de choque elétrico depois que as próprias casas de bomba alagaram, o que forçou a Prefeitura a recorrer a sacos de areia como paliativo, classificado na própria reportagem como “100% ineficiente”.
A causa-raiz identificada não foi a chuva: foi a manutenção. Os motores que operavam as comportas, instalados em 2012, haviam sido furtados ao longo dos anos seguintes e nunca foram repostos — o fechamento das comportas precisou ser feito manualmente, com retroescavadeiras, um método lento demais para acompanhar a velocidade de subida do rio. O professor Fernando Dornelles, da UFRGS, resumiu o problema estrutural que se somava ao abandono: “As comportas não são 100% vedadas. Há frestas que permitem a entrada de água.” O resultado foi o alagamento extenso do Centro Histórico e de bairros como Menino Deus, Cidade Baixa e Sarandi — este último com o próprio dique extravasado e sob risco de ruptura. Semanas depois, em 23 e 24 de maio, quando um terceiro ciclo de chuvas fortes voltou a alagar áreas da capital, o prefeito Sebastião Melo afirmou que a Prefeitura “não foi pega de surpresa” com o retorno das chuvas — declaração criticada por atribuir à chuva e à população uma responsabilidade que, à luz da apuração do Poder360, pertencia em boa parte à manutenção negligenciada do próprio sistema municipal.
A lição de governança aqui é a mais concreta e replicável de toda a série: infraestrutura de proteção contra cheias não falha apenas por eventos climáticos extremos — falha por anos de manutenção adiada que só se torna visível quando a água já está subindo. Para qualquer município que dependa de diques, comportas ou casas de bomba, o achado central é que um sistema de defesa civil não pode ser avaliado apenas pela capacidade de projeto (os “6 metros” prometidos), mas por auditorias periódicas e obrigatórias de componentes críticos — motores, vedações, bombas — com relatório público, porque peças furtadas ou vedações degradadas por uma década não aparecem em nenhum plano de contingência até o dia em que o rio sobe. Como desdobramento direto dessa falha, em junho de 2024 a própria Prefeitura de Porto Alegre decidiu fechar definitivamente 8 das 14 comportas do sistema, substituindo-as por soluções alternativas — um reconhecimento tácito de que parte da estrutura original já não era confiável mesmo antes da enchente.
“As comportas não são 100% vedadas. Há frestas que permitem a entrada de água” — diagnóstico do professor Fernando Dornelles (UFRGS), que resume por que um sistema projetado para conter 6 metros de água começou a ceder com o Guaíba ainda a 4,5 metros”
Fontes
- Poder360 — “Entenda as falhas do sistema antienchente de Porto Alegre” — 12/05/2024 — https://www.poder360.com.br/infraestrutura/entenda-as-falhas-do-sistema-antienchente-de-porto-alegre/
- Sul21 — “Melo diz que Prefeitura ‘não foi pega de surpresa’ com as chuvas que voltaram a alagar a Capital” — 24/05/2024 — https://sul21.com.br/noticias/geral/2024/05/melo-diz-que-prefeitura-nao-foi-pega-de-surpresa-com-as-chuvas-que-voltaram-a-alagar-a-capital/