Heimdall – Notícias https://noticias.sistemadegovernanca.com.br Defesa civil, prevenção e gestão de risco Thu, 27 Aug 2026 11:21:00 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 Mais de 300 mm em um mês e dois decretos de emergência em 48 horas na Campanha gaúcha — por estrada vicinal, não por enchente https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/mais-de-300-mm-em-um-mes-e-dois-decretos-de-emergencia-em-48-horas-na-campanha-gaucha-por-estrada-vicinal-nao-por-enchente/ Sat, 29 Aug 2026 15:49:00 +0000 https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/?p=1284 Estrada de terra danificada pelas chuvas em área rural de Pedras Altas, no sul do Rio Grande do Sul
Foto: Divulgação / Defesa Civil de Pedras Altas — da matéria do Clic Camaquã

Enquanto a última semana de agosto levava onda de calor e alerta de baixa umidade ao interior do Sudeste e ao Centro-Oeste, a metade sul do Rio Grande do Sul acumulava água em silêncio. Dois municípios da Campanha decretaram situação de emergência em 48 horas. Em Pedras Altas, o decreto por estragos das chuvas foi publicado no Diário Oficial dos Municípios do Estado na segunda-feira, 24 de agosto, conforme o Clic Camaquã. Em Dom Pedrito, a decisão veio depois de o município registrar mais de 300 milímetros de chuva em um mês, com impactos em estradas vicinais, vias urbanas, educação, transporte e agronegócio, segundo a Folha da Cidade e o Mais Dom Pedrito. Até o fechamento desta edição, os números dos decretos, seus prazos de vigência e o total de pessoas afetadas não haviam sido divulgados por nenhum dos dois municípios.

Não houve rio transbordando sobre o centro da cidade, não houve resgate de helicóptero, não houve imagem aérea. Houve algo que a cobertura de desastre quase nunca alcança: dano difuso de infraestrutura. Chuva prolongada sobre solo já saturado não produz um evento — produz erosão de leito de estrada de terra, bueiro colapsado, ponte de madeira comprometida, cabeceira levada, trecho intransitável a quinze quilômetros da sede. Cada ocorrência isolada é pequena; somadas ao longo de um mês, elas isolam o produtor rural, interrompem a linha do transporte escolar, travam o escoamento da safra e desorganizam o atendimento de saúde no interior do município. É o desastre que consome orçamento sem virar notícia, e que reaparece no ano seguinte porque a recomposição foi feita com o mesmo material e a mesma cota.

Daí a importância dos dois decretos, mesmo sem espetáculo. Dano cumulativo exige reconhecimento formal tanto quanto evento súbito: é o decreto que abre o caminho da contratação emergencial de máquina e de material, que sustenta o pedido de apoio estadual e que instrui o processo federal. O gargalo, porém, é probatório. A maioria das equipes municipais aprendeu a documentar dano de casa — foto da residência, formulário de vistoria, cadastro da família, laudo de interdição. Poucas coletam dano de estrada com a mesma disciplina: quilômetro exato do trecho, coordenada, fotografia antes e depois, extensão em metros, volume estimado de material perdido, número de propriedades e de alunos isolados, data e hora da interdição. Sem essa planilha, o dano existe no campo e desaparece no processo — e o município perde o que teria direito a pleitear.

Para o gestor municipal, a verificação a fazer nesta semana é simples e desconfortável. Pergunte à sua equipe quem, hoje, é responsável por registrar dano em estrada vicinal e em que formulário isso é lançado. Pergunte se a secretaria de obras e a defesa civil usam a mesma base — ou se cada uma mantém a sua, incompatível com a outra. Pergunte se existe um inventário atualizado dos pontos críticos da malha rural, aqueles trechos que rompem sempre, e se alguém consolidou quantos alunos e quantas propriedades dependem de cada um. E pergunte quanto tempo levaria, a partir de hoje, para montar um processo de emergência com evidência de dano rural suficiente para sustentar um pedido de recurso. Se a resposta for “algumas semanas”, o município já está atrasado quando a chuva começar.

“Erosão de estrada de terra não rende imagem aérea, mas isola produtor, para transporte escolar e consome orçamento — e só entra no processo se alguém a tiver fotografado e medido”

Fontes

  1. Clic Camaquã — “Pedras Altas decreta situação de emergência após estragos causados pelas chuvas” — 25/08/2026 — https://www.cliccamaqua.com.br/noticias/pedras-altas-decreta-situacao-emergencia-estragos-chuvas/
  2. Folha da Cidade — “Dom Pedrito decreta situação de emergência em razão dos danos causados pelas chuvas” — 25/08/2026 — https://www.jornalfolhadacidade.com.br/2026/08/dom-pedrito-decreta-situacao-de.html
  3. Mais Dom Pedrito — “Dom Pedrito decreta situação de emergência em razão dos danos causados pelas chuvas” — 26/08/2026 — https://www.maisdompedrito.com.br/dom-pedrito-decreta-situacao-de-emergencia-em-razao-dos-danos-causados-pelas-chuvas/
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Rio no maior nível desde 1953: o condado chinês que subiu ao Nível I às 4h da manhã, antes do pico https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/rio-no-maior-nivel-desde-1953-o-condado-chines-que-subiu-ao-nivel-i-as-4h-da-manha-antes-do-pico/ Sat, 29 Aug 2026 10:24:00 +0000 https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/?p=1299 Ruas alagadas na região de Ningming, em Guangxi, no sul da China, durante a cheia dos rios Mingjiang e Zuojiang
Foto: China Daily — crédito do fotógrafo não informado na página original — da matéria do China Daily

Às 4h da madrugada de domingo, 23 de agosto, o condado de Ningming, na cidade de Chongzuo, região autônoma de Guangxi, elevou sua resposta de emergência para controle de cheias ao Nível I — o máximo da escala chinesa. A decisão foi tomada antes do pico da cheia e, sobretudo, sem esperar o ente superior: naquele mesmo dia, o governo central operava em Nível IV, o mais baixo dos quatro, para Guangdong, Guangxi e Hainan, conforme registrou o The Star. É a demonstração prática de um princípio que costuma se perder nos planos brasileiros: o nível de resposta é do município, não do estado. Quem tem o rio na porta escalona primeiro e comunica depois. Em Ningming, 16.226 pessoas foram retiradas em segurança, segundo o China Daily.

O que justificou a decisão local está nas réguas. Catorze rios de Guangxi ultrapassaram o nível de alerta, com excedentes que foram de 0,37 m a 7,69 m. O rio Mingjiang chegou a 6,69 m acima do nível de alerta — o mais alto desde o início dos registros, em 1953 — e o Zuojiang atingiu o maior nível desde 1986, de acordo com a Xinhua. A chuva forte atingiu 64 distritos em 17 condados de seis cidades, com condições moderadas a severas em 92 distritos de 30 regiões de nível de condado. Para o gestor brasileiro, essa é a parte desconfortável: se o rio bate o recorde de 73 anos de série histórica, então a cota de inundação de referência — aquela que define quem é área de risco no mapa, quem recebe alerta e até onde vai a evacuação — foi calibrada por uma cheia que o evento superou. O plano de contingência que se apoia na maior cheia conhecida não cobre o evento que a supera, e é justamente esse o evento que mata.

O terceiro dado é de logística e de controle. Mais de 54 mil moradores foram deslocados em Guangxi, mas apenas 8.087 foram para abrigos coletivos — o restante foi para casa de parentes e conhecidos. Em Chongzuo, 36.062 moradores precisavam ser removidos e 27.622 já haviam saído até o meio-dia de 24/08; em Longzhou, foram 12.200. A proporção importa duas vezes. Primeiro no dimensionamento: abrigo público não precisa comportar o total de desalojados, e sim a fração que não tem para onde ir. Depois, e principalmente, na rastreabilidade: as 46 mil pessoas que não passaram pelo abrigo saíram do mapa oficial. Sem cadastro de destino, o município não sabe quem saiu, quem ficou e quem voltou cedo demais para uma casa ainda em risco.

Tan Yuxia, moradora retirada e abrigada em Ningming, disse ao China Daily que se sentia completamente segura e aliviada de estar ali. A pergunta que o prefeito ou o coordenador de defesa civil deve fazer à própria equipe é simples e tem duas partes: qual é a maior cheia registrada no nosso rio, e o que o plano manda fazer quando a régua passar dela? E, na hora em que a sirene tocar, quem anota o endereço para onde foi cada família que não entrou no abrigo?

“Nós nos sentimos completamente seguros e aliviados de estar aqui.”

Fontes

  1. China Daily — “Narra hits Guangxi, triggers evacuations” — 25/08/2026 — https://www.chinadaily.com.cn/a/202608/25/WS6a8cebf0e4b057c97e209880.html
  2. Xinhua — “Rainstorms, typhoons hit multiple Chinese regions, trigger flood responses” — 25/08/2026 — https://english.news.cn/20260825/9bfeff10267f4a47a5666c230aa021b2/c.html
  3. RTHK — “Mass evacuation as Guangxi braces for deluge to worsen” — 24/08/2026 — https://news.rthk.hk/rthk/en/component/k2/1867290-20260824.htm
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De -9,1 °C na Serra catarinense a 40 °C no Centro-Oeste em 72 horas: dois desastres opostos para a mesma escala de plantão https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/de-91-c-na-serra-catarinense-a-40-c-no-centro-oeste-em-72-horas-dois-desastres-opostos-para-a-mesma-escala-de-plantao/ Fri, 28 Aug 2026 14:42:00 +0000 https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/?p=1281 Paisagem de campo coberta de geada ao amanhecer na Serra catarinense
Foto: Mycchel Legnaghi / ND Mais — imagem ilustrativa do frio na Serra catarinense publicada com a matéria de 24/08; o mesmo fotógrafo tem registro quase idêntico referente a 24/06/2026. Da matéria do ND Mais

Na manhã de segunda-feira, 24 de agosto, Bom Jardim da Serra (SC) registrou -9,1 °C, a segunda menor temperatura do ano no Brasil — a 0,1 °C do próprio recorde local, de -9,2 °C, medido em 24 de junho de 2026. No mesmo amanhecer, São Joaquim marcou -6,6 °C, Urubici -6,3 °C, e Painel e Urupema -6 °C. Ao todo, segundo dados da Epagri/Ciram divulgados pelo ND Mais, 18 municípios catarinenses tiveram mínimas entre 0 °C e -9,1 °C naquela segunda. A menor temperatura do país em 2026 até então seguia sendo -11,5 °C, no Parque Nacional do Itatiaia (RJ), em 15 de julho.

Setenta e duas horas depois, o mapa era outro. Ainda em 24 de agosto, em análise assinada pela meteorologista Josélia Pegorim, a Climatempo já avaliava decretar onda de calor a partir de 25 e 26 de agosto para o interior de São Paulo, o Centro-Oeste, o Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, com temperaturas podendo chegar a 40 °C. Em 26 de agosto, a previsão publicada pelo Giro do Boi, do Canal Rural, confirmava máximas de 39 °C a 40 °C no Centro-Oeste, com o Mato Grosso no topo, e, simultaneamente, mínimas de 4 °C a 5 °C nas serras gaúcha e catarinense. No boletim do Inmet do mesmo dia, Cuiabá aparecia com máxima de 39 °C, conforme registrou o Jornal de Brasília.

O país foi de risco de geada e hipotermia a risco de onda de calor e incêndio na mesma semana. Isso não é curiosidade meteorológica: é problema de estrutura de plantão. As duas ameaças exigem protocolos opostos, e não há como improvisar a virada. O de frio extremo pede abrigo aquecido aberto fora do horário administrativo, estoque de cobertores e colchões conferido antes da noite crítica, busca ativa de população em situação de rua com equipe na rua durante a madrugada, atenção a idosos que moram sozinhos e a domicílios sem aquecimento. O de calor extremo pede o inverso: pontos de hidratação, horário protegido para trabalho ao ar livre e para atividade escolar, alerta de queimada e de baixa umidade, monitoramento de crianças, idosos e trabalhadores expostos ao sol no pico da tarde. Nenhum dos dois se parece com o protocolo de chuva — e é para chuva que a esmagadora maioria das prefeituras brasileiras tem plano formalizado, com gatilho pluviométrico, escala de sobreaviso e ponto de apoio definido.

O gestor municipal que ler estes números deve levar à sua equipe três perguntas objetivas, e exigir a resposta por escrito. Existe protocolo escrito de frio extremo — quem abre o abrigo, com que estoque, a partir de qual temperatura prevista e com quantas horas de antecedência? Existe protocolo escrito de calor extremo — quem aciona ponto de hidratação, quem suspende atividade ao ar livre, com que gatilho de máxima e de umidade relativa? E, principalmente: quem, no plantão, lê a previsão todo dia e tem autoridade para acionar qualquer um dos dois sem esperar despacho? A resposta usual é que o protocolo existe para chuva, o resto se resolve na hora. Uma semana que vai de -9,1 °C a 40 °C mostra o custo dessa lacuna.

“A cidade que só tem protocolo para chuva está descoberta em metade dos dias do ano — e nesta semana ficou descoberta nos dois extremos”

Fontes

  1. ND Mais — “Com -9,1 ºC, SC registra segunda menor temperatura do ano e cidade da Serra catarinense quase quebra próprio recorde” — 24/08/2026 — https://ndmais.com.br/tempo/com-91oc-sc-registra-segunda-menor-temperatura-do-ano-e-cidade-da-serra-catarinense-quase-quebra-proprio-recorde/
  2. Climatempo — “Última semana de agosto de 2026: do frio de quase -10 °C a onda de calor” — 24/08/2026 — https://www.climatempo.com.br/noticia/frio/ultima-semana-de-agosto-de-2026-do-frio-de-quase-10c-a-onda-de-calor
  3. Giro do Boi / Canal Rural — “Centro-Oeste terá calor de 40 °C e Sul volta a enfrentar chuva forte” — 26/08/2026 — https://girodoboi.canalrural.com.br/pecuaria/centro-oeste-tera-calor-de-40c-e-sul-volta-a-enfrentar-chuva-forte
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São Sebastião volta a ensaiar a evacuação de Maresias às 9h — e testa a única hipótese que nenhum plano de contingência comprova sozinho https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/sao-sebastiao-volta-a-ensaiar-a-evacuacao-de-maresias-as-9h-e-testa-a-unica-hipotese-que-nenhum-plano-de-contingencia-comprova-sozinho/ Fri, 28 Aug 2026 13:35:00 +0000 https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/?p=1278 Encosta desmoronada sobre casas destruídas na Vila Sahy, em São Sebastião, após o temporal de fevereiro de 2023
Foto de arquivo: Instituto Conservação Costeira — imagem do desastre de fevereiro de 2023 na Vila Sahy, não do simulado desta semana; da matéria da CNN Brasil

São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, retomou nesta quinta-feira, 27 de agosto, a rodada de simulados de evacuação em áreas de risco. O exercício em Maresias começou às 8h, teve a evacuação simulada às 9h e encerramento às 11h, com um destino definido de antemão: a E.M. Prof.ª Edileusa Brasil Soares de Souza. Segundo a CNN Brasil, a programação prevê a realização da mesma ação em outros seis bairros na sequência. É a continuidade de um programa nascido do temporal de fevereiro de 2023, que matou 64 pessoas no município, a maior parte na Vila Sahy, conforme registrou o THMais.

Todo plano de contingência municipal repousa sobre uma hipótese que raramente é verificada: a de que o morador vai sair de casa quando for avisado. Mapa de risco, sirene, cadastro de vulneráveis e acionamento por celular são instrumentos que medem a emissão do aviso — nenhum deles mede a recepção. O simulado é o único instrumento que testa a hipótese inteira, do gatilho pluviométrico até a pessoa efetivamente cruzando o portão da escola. E o desenho de São Sebastião acerta em três pontos concretos. O primeiro é o destino: não se ensaia ir para “um local seguro”, ensaia-se ir para um endereço, com nome, com portão, com quem abre. Um ponto de apoio genérico é uma abstração que se dissolve às três da manhã sob chuva. O segundo é a granularidade: rodar bairro a bairro, em ciclos que se repetem, é o que separa treinamento de evento de comunicação — a rodada anterior, em novembro e dezembro de 2025, percorreu oito bairros, de Vila Sahy a Maresias, sempre com ginásio ou escola nomeados, como mostrou o Tamoios News. Na ocasião daquela rodada, em novembro de 2025, o coordenador da Defesa Civil de São Sebastião, Ricardo Cardoso dos Santos, resumiu o objetivo assim: “Havendo necessidade de evacuação preventiva, a população saberá para onde ir para se manter em segurança.” O terceiro ponto é que o cronograma público é, ele próprio, peça de comunicação de risco: anunciar com antecedência quais bairros serão treinados informa a cidade sobre onde estão suas áreas de risco.

A semana ofereceu uma coincidência dura. O município ensaiou risco geológico em Maresias nos mesmos dias em que a ressaca destruía decks e muros à beira-mar no próprio bairro, com a Defesa Civil municipal intensificando o monitoramento da praia, segundo o MEON. Encosta e mar disputando a mesma equipe, no mesmo endereço, na mesma semana — retrato do que é gerir risco em cidade litorânea encaixada entre serra e oceano.

Para o gestor municipal, a pergunta a fazer à própria equipe não é se existe plano de contingência, porque quase sempre existe, arquivado. A pergunta é quando ele foi executado por último com moradores reais dentro. Quantos bairros de risco da cidade já ensaiaram a saída? Cada um deles tem um ponto de apoio nomeado por escrito, com responsável pela chave e horário de abertura? E quanto tempo levou, cronometrado, da ordem de evacuação até o último morador chegar? Plano nunca testado não é plano: é documento.

“Mapa de risco mede a emissão do aviso; só o simulado mede se alguém saiu de casa”

Fontes

  1. CNN Brasil — “São Sebastião faz treinamento de evacuação para moradores de áreas de risco” — 26/08/2026 — https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/sao-sebastiao-faz-treinamento-de-evacuacao-para-moradores-de-areas-de-risco/
  2. Tamoios News — “Confira os dias dos simulados de evacuação de áreas de risco nos bairros de São Sebastião” — 03/11/2025 — https://tamoiosnews.com.br/confira-programacao-dos-simulados-de-evacuacao-de-areas-de-risco-nos-bairros-de-sao-sebastiao/
  3. THMais — “Defesa Civil faz simulados de evacuação em áreas de risco em São Sebastião” — 05/11/2025 — https://thmais.com.br/cidades/vale/cotidiano-vale/defesa-civil-faz-simulados-de-evacuacao-em-areas-de-risco-em-sao-sebastiao
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Portaria 2.757 reconhece sete municípios do Nordeste em emergência por estiagem — e o cronômetro que conta não é o da seca https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/portaria-2-757-reconhece-sete-municipios-do-nordeste-em-emergencia-por-estiagem-e-o-cronometro-que-conta-nao-e-o-da-seca/ Fri, 28 Aug 2026 12:28:00 +0000 https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/?p=1275 Terreno rachado pela seca no semiárido nordestino, com vegetação ressecada ao fundo
Foto de arquivo: ASA / Divulgação — imagem de banco, ilustrativa da seca no semiárido, não registro dos municípios reconhecidos nesta semana; da matéria da Agência Brasil

A Portaria nº 2.757, de 25 de agosto de 2026, da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, publicada no Diário Oficial da União em 26 de agosto, reconheceu situação de emergência por estiagem em sete municípios do Nordeste: Canapi, em Alagoas; Gavião e Poções, na Bahia; e Brejo dos Santos, Frei Martinho, Monte Horebe e São José de Espinharas, na Paraíba. Segundo a Agência Brasil, o ato habilita assistência humanitária, aquisição de cestas básicas, abastecimento de água, distribuição de kits de higiene e outras medidas voltadas ao atendimento da população atingida pelos efeitos da seca. Em Alagoas, o reconhecimento de Canapi foi confirmado de forma independente pela Tribuna Hoje, que também registrou o número e a data da portaria.

Nenhum desses sete municípios teve um evento súbito nesta semana. Não houve rompimento, não houve colapso, não houve hora zero. O que houve foi a maturação de sete processos administrativos no S2iD, o sistema federal em que o município registra o desastre, anexa o decreto e envia o Formulário de Informações do Desastre. A estiagem é o desastre de evolução lenta por excelência: ela não produz uma data, produz um acúmulo. E é justamente por isso que o cronômetro que importa aqui não é o do fenômeno, e sim o do protocolo. Quem não mantém o FIDE atualizado, o decreto municipal dentro do prazo de vigência e a documentação de dano em ordem simplesmente não entra na fila — e a água, a cesta e o kit de higiene bancados pela União chegam a outro lugar.

Vale olhar o porte de quem está nessa fila. São cidades pequenas do semiárido, muitas com coordenação de defesa civil composta por uma ou duas pessoas, frequentemente acumulando a função com outra pasta. Essas equipes disputam exatamente o mesmo protocolo federal, com os mesmos campos e os mesmos prazos, que uma capital com departamento próprio, assessoria jurídica e servidor dedicado ao sistema. O ritmo é constante: na semana anterior, outra portaria havia reconhecido cinco municípios da Bahia, da Paraíba e de Pernambuco também por estiagem, conforme registrou o Blog do Didi. O reconhecimento federal por seca virou rotina de calendário — e rotina, no Estado brasileiro, favorece quem tem processo montado.

Para o gestor municipal, a decisão em jogo é anterior à seca e não tem nada de dramática: é decidir quem, na prefeitura, é responsável por manter a documentação de desastre viva o ano inteiro. Não existe reconhecimento federal retroativo para compensar decreto vencido. As perguntas concretas a levar à equipe nesta semana são três. Primeira: o decreto municipal de emergência por estiagem em vigor tem qual data de validade, e quem está encarregado de renová-lo antes do vencimento? Segunda: o FIDE do município foi atualizado com dados de abastecimento, de perda agrícola e de população afetada deste ciclo, ou repete os do ciclo anterior? Terceira: quem, nominalmente, tem login no S2iD — e o que acontece com o processo se essa pessoa sair de férias, adoecer ou for exonerada? Em desastre de evolução lenta, a capacidade administrativa é a capacidade de resposta.

“Na seca não há hora zero: o que decide quem recebe cesta básica e água potável é o prazo do decreto e a data do FIDE, não a data da chuva que não veio”

Fontes

  1. Agência Brasil — “Estiagem: Defesa Civil reconhece emergência em cidades do Nordeste” — 26/08/2026 — https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-08/estiagem-defesa-civil-reconhece-emergencia-em-cidades-do-nordeste
  2. Tribuna Hoje (AL) — “Canapi tem situação de emergência pelo Governo Federal” — 26/08/2026 — https://tribunahoje.com/noticias/cidades/2026/08/26/192283-canapi-tem-situacao-de-emergencia-pelo-governo-federal
  3. Blog do Didi — “Defesa Civil reconhece emergência por estiagem em cinco municípios de BA, PB e PE” — 17/08/2026 — https://blogdodidi.com.br/defesa-civil-reconhece-emergencia-por-estiagem-em-cinco-municipios-de-ba-pb-e-pe/
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265 desaparecidos em solo chinês: a resposta de Nível II que Pequim ativou no mesmo dia do deslizamento https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/265-desaparecidos-em-solo-chines-a-resposta-de-nivel-ii-que-pequim-ativou-no-mesmo-dia-do-deslizamento/ Fri, 28 Aug 2026 09:17:00 +0000 https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/?p=1296 Equipes de resgate trabalham sobre a massa de lama que atingiu o porto de fronteira de Gyirong, em Xizang, no sudoeste da China
Foto: Global Times — crédito do fotógrafo não informado na página original — da matéria do Global Times

Do outro lado da fronteira que o desastre de 26 de agosto atravessou, o balanço chinês tem números próprios. Às 20h daquela quarta-feira, o saldo em solo chinês era de 3 mortos e 265 desaparecidos, segundo a Xinhua. A massa de lama e detritos atingiu o porto terrestre de Gyirong — posto de fronteira no condado de Gyirong, prefeitura de Xigazê, Região Autônoma de Xizang — por volta das 10h30 do horário local, e soterrou as edificações do posto, conforme o Global Times. O deslizamento não se formou em território chinês: originou-se do lado nepalês e desceu para matar em solo chinês. Ainda no mesmo dia, a Comissão Nacional de Prevenção, Redução e Socorro de Desastres e o Ministério da Gestão de Emergências ativaram resposta de emergência nacional de Nível II, o segundo mais alto da escala chinesa de quatro níveis para desastres geológicos.

O que se seguiu à ativação é a parte mensurável da resposta. Foram mobilizados mais de 1.400 socorristas de cinco corpos distintos: 792 profissionais da gestão de emergências com 152 veículos, 431 bombeiros e socorristas com 72 veículos, 145 policiais armados e militares, mais de 130 militares de contingente de resgate com veículos de engenharia e 325 profissionais das estatais China Anneng e Power China. O equipamento levado inclui cães de busca, detectores de vida, life scanners, botes, drones multifuncionais e escâneres a laser 3D. No campo financeiro, o governo central destinou 120 milhões de yuans em fundos de socorro e 100 milhões de yuans para a recuperação pós-desastre — 220 milhões empenhados no mesmo dia do evento, e não em portaria publicada semanas depois. Do estoque central saíram 8.000 casacos, 2.000 barracas, 3.000 edredons e 5.000 isolantes térmicos, além de outros 30 mil itens.

A operação começou, porém, com as três redes no chão ao mesmo tempo: estradas, telecomunicações e energia foram cortadas na região de Xigazê, e equipes de reparo da rede elétrica tiveram de ser despachadas antes que o socorro pudesse ser dimensionado. Tenzin Norbu, chefe da divisão de notícias do Departamento de Publicidade Municipal de Xigazê, relatou que as comunicações estavam interrompidas e que ele ainda não dispunha do quadro completo da situação. O presidente Xi Jinping determinou esforços máximos para localizar os desaparecidos e pediu reforço do monitoramento e dos sistemas de alerta precoce, para evitar desastres secundários.

Para o gestor municipal brasileiro, o caso oferece três perguntas objetivas. A primeira é sobre risco que nasce fora do território: quem está a jusante de uma barragem, de uma cava de mineração ou de uma encosta que pertence ao município vizinho não tem alerta possível sem acordo formal de monitoramento e comunicação com esse vizinho — o plano precisa dizer quem liga para quem, e em quanto tempo. A segunda é sobre o apagão informacional: se estrada, telefonia e energia caírem juntas, qual é a rota redundante da sua coordenadoria — rádio, satélite, mensageiro? A terceira é sobre dinheiro: existe dotação de emergência acionável no mesmo dia, ou o socorro espera o trâmite orçamentário?

“O risco que matou em solo chinês se formou do outro lado da fronteira — e nenhum plano municipal cobre a encosta que ele não enxerga.”

Fontes

  1. Xinhua — “China Focus: Rescuers rush to mudslide-hit border port in SW China’s Xizang” — 27/08/2026 — https://english.news.cn/20260827/02c67da9f169426a8c22af22465458f3/c.html
  2. Global Times — “All-out search, rescue mobilized after massive mudslide hits border port in China’s Xizang” — 26/08/2026 — https://www.globaltimes.cn/page/202608/1369067.shtml
  3. Al Jazeera — cobertura da enxurrada na fronteira Nepal-Tibete — 26/08/2026 — https://www.aljazeera.com/news/2026/8/26/at-least-eight-killed-in-nepal-flash-floods-that-swept-away-villages-roads
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O risco estava mapeado desde 2019, o acordo era por WeChat — e com o distrito errado https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/o-risco-estava-mapeado-desde-2019-o-acordo-era-por-wechat-e-com-o-distrito-errado/ Fri, 28 Aug 2026 08:10:00 +0000 https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/?p=1293 Vista aérea da destruição no corredor de fronteira de Rasuwagadhi e Timure, no distrito de Rasuwa, Nepal
Foto: Kamal Prasai/OnlineKhabar — imagem da galeria de drone que cobriu Rasuwagadhi, Timure, Dhunche, Mailung, Syafrubesi, Betrabati, Bidur e Trishuli Bazar, publicada pelo OnlineKhabar

A pergunta depois de um desastre glacial é sempre a mesma: alguém sabia? Aqui a resposta é documental. Em novembro de 2020, o ICIMOD e o PNUD publicaram o inventário dos lagos glaciais das bacias Koshi, Gandaki e Karnali: 3.624 lagos catalogados, 47 classificados como potencialmente perigosos — 42 na bacia do Koshi, 31 no Rank I, o nível mais alto — e, dos 47, 25 na Região Autônoma do Tibete, do lado chinês da fronteira. Um ano antes, Zhang e colegas haviam publicado no Journal of Glaciology um estudo sobre a bacia exata deste desastre: o Poiqu, nome chinês do curso que se torna Bhotekoshi ao entrar no Nepal. Os números do artigo, no Cambridge Core, são inequívocos: a área de lagos glaciais na bacia cresceu cerca de 110% entre 1964 e 2017, de 9,7 km² para 20,5 km²; eram 102 lagos em 2017, contra 73 em 1964; e oito, com expansão superior a 150%, foram identificados como perigo de ruptura. Dave Petley resume como esses dados costumam ser lidos: “we systematically under-estimate the risk associated with these events in the Himalaya mountains”.

O risco estava nominado, quantificado e localizado. O que faltava não era informação — era o canal por onde ela atravessa uma fronteira. Em agosto de 2024, o chefe do Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal advertiu publicamente que a China retinha dados essenciais sobre lagos glaciais, pondo em risco comunidades nepalesas de montanha. Em 1º de agosto de 2025 houve um avanço, e ele é pequeno de um jeito que precisa ser lido com atenção: no condado tibetano de Nyalam, autoridades locais chinesas e nepalesas acordaram compartilhar informação sobre risco de ruptura glacial — mas em nível distrital, entre Nyalam e o distrito de Sindhupalchok. Não Rasuwa. Quem assinou pelo lado nepalês, o Superintendente de Polícia Rameshwor Karki, descreveu ao Climate Home News o canal pactuado com todas as letras: “They install an early warning system and provide information to us based on early warning in WeChat and phone calls.” Em maio de 2026, o chanceler Shisir Khanal levou o tema à China e os dois países concordaram em princípio em trocar informação em tempo real sobre cheias e deslizamentos. Nenhum acordo formal foi firmado.

O terceiro bloco transforma isso de lacuna em omissão. Em 2025, o Stimson Center investigou a cheia de Rasuwa de julho daquele ano e recomendou mecanismos robustos de compartilhamento de dados e monitoramento conjunto entre China e Nepal, monitoramento multimodal dos lagos supraglaciais e avaliação multirrisco para hidrelétricas. A cheia que motivou a recomendação ocorrera em 8 de julho de 2025, no mesmo rio: pelo menos 11 mortos, 17 desaparecidos, a Ponte da Amizade de Rasuwagadhi destruída e sete hidrelétricas de cerca de 250 MW danificadas, perto de 8% da geração nacional. Treze meses depois, com o mesmo trecho devastado outra vez, Qianggong Zhang, chefe de Riscos Climáticos e Ambientais do ICIMOD, registrou a repetição: “The same site devastated by last year’s Rasuwa flood is once again under threat.” Entre uma catástrofe e outra, o que mudou institucionalmente foi um acordo distrital, informal, por aplicativo de mensagens, cobrindo o distrito vizinho.

Este é o ângulo mais transferível para o Brasil. Bacias e riscos também cruzam fronteiras administrativas aqui — entre municípios vizinhos, entre estados, e entre países na Amazônia e na bacia do Prata. Um município a jusante de barragem, mineração ou encosta que pertence ao vizinho está na posição de Rasuwa: o risco é do outro, a água é sua. E o arranjo que a maioria dessas prefeituras tem hoje é o de Nyalam — um contato pessoal, um número de celular, um grupo de mensagens que funciona enquanto quem o criou estiver no cargo. A pergunta a levar à equipe é de papel: existe acordo formal de monitoramento e notificação com o município, o estado ou o operador privado que controla a fonte de risco a montante, com ponto focal nomeado, suplente, protocolo escrito e prazo de resposta? Se a resposta for um nome de contato em vez de um documento, não existe alerta possível. Existe um grupo de WhatsApp — e ele vai falhar exatamente no dia em que for necessário.

“Sem acordo formal, ponto focal nomeado e protocolo escrito, não existe alerta entre vizinhos: existe um grupo de WhatsApp”

Fontes

  1. ICIMOD — “New glacial lake inventory report released: 47 potentially dangerous glacial lakes ranked” — 11/11/2020 — https://www.icimod.org/new-glacial-lake-inventory-report-released-47-potentially-dangerous-glacial-lakes-ranked/
  2. Climate Home News — “Nepal and China agree to cooperate on glacial lake flooding as warming hikes threat” — 27/08/2025 — https://www.climatechangenews.com/2025/08/27/nepal-and-china-agree-to-cooperate-on-glacial-lake-flooding-as-warming-hikes-threat/
  3. Stimson Center — “Investigating an Emerging Climate Hazard: Transboundary Glacial Floods on the China-Nepal Border” — 2025 — https://www.stimson.org/2025/investigating-an-emerging-climate-hazard-transboundary-glacial-floods-on-the-china-nepal-border/
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“Nós falhamos em Rasuwa”: o alerta saiu em 4 minutos, mas o primeiro elo da cadeia já estava quebrado https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/nos-falhamos-em-rasuwa-o-alerta-saiu-em-4-minutos-mas-o-primeiro-elo-da-cadeia-ja-estava-quebrado/ Thu, 27 Aug 2026 17:03:00 +0000 https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/?p=1290 Imagem aérea de drone mostrando a destruição em Dhunge Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal
Foto: Angad Dhakal/The Kathmandu Post — imagem de drone de Dhunge Bazar, em Nuwakot, o distrito a jusante que chegou a receber o alerta, da matéria do The Kathmandu Post

É raro um dirigente técnico admitir publicamente uma falha no mesmo dia do desastre. Binod Parajuli, chefe da Flood Forecasting Division do Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal (DHM), fez isso em uma frase só, ao Kathmandu Post: “We failed in Rasuwa. But we sent warnings to Nuwakot and downstream areas, and possibly several hundred people were able to save their lives.” Nós falhamos em Rasuwa, mas enviamos alertas para Nuwakot e para as áreas rio abaixo, e possivelmente várias centenas de pessoas conseguiram salvar a própria vida. Nas duas metades dessa frase está a lição mais aproveitável da catástrofe de 26 de agosto: alerta precoce não é equipamento nem software. É uma cadeia — detecção, decisão, transmissão, recepção, ação — em que cada elo pode falhar sozinho e a falha de um anula todos os anteriores.

Detecção. O primeiro elo quebrou antes de tudo. A Flood Forecasting Division só soube que uma cheia havia entrado no Bhotekoshi vindo do lado tibetano às 08h56 — depois de a água já estar dentro do Nepal, e praticamente ao mesmo tempo em que Timure era atingida, por volta das 09h00. Não houve aviso do lado de origem. O segundo problema é mais cru: as estações automáticas de monitoramento do alto Bhotekoshi foram varridas antes de transmitir qualquer alerta. O sensor que deveria avisar foi a primeira vítima. Anil Pokhrel, ex-Chefe Executivo da NDRRMA, a autoridade nacional de gestão de risco, aponta que a raiz desse elo não é técnica: “Unless the Foreign Ministry of Nepal coordinates with the relevant Chinese authorities and creates a system through which early warnings reach our disaster management authority, this problem will continue.”

Decisão e transmissão. Aqui a cadeia funcionou. Com a informação em mãos às 08h56, a Divisão disparou o alerta para as áreas a jusante em quatro minutos — é esse elo que sustenta a segunda metade da frase de Parajuli. Recepção e ação. E é aqui que ela quebra de novo, do outro lado. A administração distrital de Rasuwa não recebeu notificação prévia. O Município Rural de Uttargaya não foi efetivamente avisado. Um alerta emitido em quatro minutos que não chega ao gestor local não é um alerta: é um registro. O especialista Suman Kumar Karn explicou ao Spotlight Nepal por que a margem é tão estreita — um sistema de alerta “is only as good as the information it receives”, e uma vez que a água entra no Nepal o tempo “is measured in minutes, not hours”. Não é hipótese: segundo o Stimson Center, em 8 de julho de 2025 o mesmo rio recebeu uma cheia às 3h15 da madrugada, sem chuva e sem nenhum aviso emitido. O que fecha o inventário é o heliponto de Timure, varrido pela onda: a infraestrutura de resposta foi destruída pelo próprio evento. O último elo, o socorro, também tinha um ponto único de falha dentro da área de risco.

Para o gestor municipal brasileiro, a transposição é direta e desconfortável. Cada elo dessa cadeia tem um dono diferente na sua cidade: o sensor de nível pode ser do estado ou de uma concessionária; a decisão de acionar é de quem estiver de plantão na Defesa Civil; a transmissão depende de operadora de telefonia, de sirene com bateria e de cadastro de SMS; a recepção depende de o morador reconhecer o som; a ação depende de haver rota e ponto de apoio definidos. A pergunta a levar à equipe nesta semana não é “temos sistema de alerta”. É outra: quem é o dono nominal de cada um desses cinco elos, com nome e telefone — e qual deles nunca foi testado fora de exercício de gabinete? O elo que ninguém testou é o que vai quebrar. Em Rasuwa, ele já foi testado.

“Um alerta emitido em quatro minutos que não chega ao gestor local não é um alerta: é um registro”

Fontes

  1. The Kathmandu Post — “Nepal flash flood kills at least 95, leaves nearly 400 missing including foreign tourists” — 26/08/2026 — https://kathmandupost.com/national/2026/08/26/nepal-flash-flood-kills-at-least-95-leaves-nearly-400-missing-including-foreign-tourists
  2. Spotlight Nepal — “Rasuwa flood: transboundary wake-up call” — 26/08/2026 — https://www.spotlightnepal.com/2026/08/26/rasuwa-flood-transboundary-wake-call/
  3. Stimson Center — “Investigating an Emerging Climate Hazard: Transboundary Glacial Floods on the China-Nepal Border” — 2025 — https://www.stimson.org/2025/investigating-an-emerging-climate-hazard-transboundary-glacial-floods-on-the-china-nepal-border/
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A onda que apagou a fronteira: o Trishuli subiu 9 metros em 30 minutos e o dia 26 fechou com 160 mortos https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/a-onda-que-apagou-a-fronteira-o-trishuli-subiu-9-metros-em-30-minutos-e-o-dia-26-fechou-com-160-mortos/ Thu, 27 Aug 2026 16:56:00 +0000 https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/?p=1287 Área devastada pela enxurrada do Bhotekoshi no Nepal, com destroços e lama cobrindo o vale
Foto: Navesh Chitrakar/Reuters — da matéria do PBS NewsHour

Às 08h37 de 26 de agosto, horário do Nepal, o USGS registrou um sinal sísmico de magnitude 4,4 na fronteira entre o Tibete (Xizang) e o Nepal. A leitura inicial, de terremoto, correu o mundo. Ela não se sustenta. O geólogo Dave Petley comparou imagens do satélite Planet, localizou a origem cerca de 20 km a nordeste do posto de fronteira de Rasuwagadhi e escreveu no EOS/AGU que “the seismic signal is almost certainly the rock ice avalanche and debris flow, not a tectonic event”. O sinal não antecedeu o desastre: era o próprio desastre. Segundo o EarthSky, o USGS reviu a atribuição e passou a registrá-lo como gerado por deslizamento. Petley também rejeita o rótulo de GLOF, a ruptura de lago glacial: “no evidence that this was a GLOF”. A divergência segue aberta e precisa ser declarada — Ranjan Kumar Dahal, da Universidade Tribhuvan, sustenta ao OnlineKhabar que uma cheia dessa magnitude seria difícil de explicar sem avalanche seguida de ruptura glacial, mas ressalva: “We cannot say at this stage which lake failed or how.”

O mecanismo tem três tempos: um colapso de gelo e rocha bloqueou o Lhende Khola, afluente do Bhotekoshi; o entulho represou um lago temporário de gelo e detritos; o lago rompeu. Binod Parajuli, chefe da Flood Forecasting Division do DHM, resumiu ao Kathmandu Post: “An icefall and landslide can be seen. An ice and debris lake formed and then burst.” E explicou a destruição: “If it had been only clear water, it would not have caused this level of destruction.” Não foi chuva — menos de 7 mm em 24 horas na região. A onda desceu Lhende Khola, Bhotekoshi, Trishuli e Narayani, e por volta das 09h00 alcançou Timure. Rajendra Dhungana, chefe da alfândega de Rasuwa, viu de perto: “It was the flood, rising like a wave nearly 100 metres high and sweeping through the market. Within moments, the market was gone.” O Trishuli subiu 9 metros em 30 minutos, segundo a NPR. À tarde a cheia chegou a Galchhi, em Dhading, e o alerta foi estendido até Muglin.

O balanço não parou de se mover: 3 mortos às 13h54, 7 às 14h12, 22 às 17h50, 72 às 20h08 e 157 corpos recuperados às 23h34, número da Polícia do Nepal. A mídia estatal chinesa informou 3 mortos no lado tibetano, e a AFP consolidou 160 ao fim do dia 26, advertindo que os dados chineses são preliminares e que não está claro se há sobreposição com os nepaleses. Nenhum balanço posterior a 26/08 foi localizado até o fechamento desta edição. A distribuição das 20h08 é o dado mais revelador: Chitwan 28, Dhading 18, Nuwakot 11, Gorkha 9, Tanahu 4, Rasuwa 1, Nawalparasi Leste 1. A maior parte dos mortos estava a centenas de quilômetros da origem: não foi um desastre de vale, foi um desastre de bacia inteira. Ficaram para trás 19 pontes, 40 km de rodovia, 9 hidrelétricas danificadas, 430 MW fora de operação e mais de 300 caminhões levados do pátio alfandegário. Gokarna Adhikari, morador de Dandathok, em Tupche: “Even the houses that look intact from a distance are completely covered in mud and debris.” Segundo a ONU, cerca de 10 mil famílias precisam de socorro imediato.

Para o gestor municipal brasileiro, o número decisivo não é o de mortos: é o de quilômetros. A água atravessou uma fronteira internacional em minutos, mas levou horas para chegar a Chitwan, onde morreu mais gente do que em Rasuwa e Nuwakot somados. Essa diferença entre a velocidade na cabeceira e o tempo de trânsito rio abaixo é a janela que um sistema de alerta de bacia existe para usar. A pergunta a levar à equipe é cronométrica: quantas horas leva uma onda de cheia da cabeceira do rio que corta minha cidade até o bairro mais baixo — e quem, hoje, mede esse tempo e avisa? Enquanto essa conta não estiver escrita, com nome e telefone ao lado, o município a jusante não tem alerta: tem sorte.

“A distância entre o ponto de origem e o distrito onde morreu mais gente é a janela de tempo que um sistema de alerta de bacia deveria ter usado”

Fontes

  1. The Kathmandu Post — “Nepal flash flood kills at least 95, leaves nearly 400 missing including foreign tourists” — 26/08/2026 — https://kathmandupost.com/national/2026/08/26/nepal-flash-flood-kills-at-least-95-leaves-nearly-400-missing-including-foreign-tourists
  2. EOS/AGU, The Landslide Blog — “26 August 2026: Nepal and Tibet” — 26/08/2026 — https://eos.org/thelandslideblog/26-august-2026-nepal-and-tibet
  3. PBS NewsHour/AP — “At least 22 killed and hundreds missing after avalanche triggers deadly flash floods in Nepal” — 26/08/2026 — https://www.pbs.org/newshour/world/at-least-22-killed-and-hundreds-missing-after-avalanche-triggers-deadly-flash-floods-in-nepal
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Santa Catarina avisou de granizo com 48 horas de antecedência — no quinto dia seguido de boletins encadeados https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/santa-catarina-avisou-de-granizo-com-48-horas-de-antecedencia-no-quinto-dia-seguido-de-boletins-encadeados/ Thu, 27 Aug 2026 11:21:00 +0000 https://noticias.sistemadegovernanca.com.br/?p=1273 Arte institucional da Defesa Civil de Santa Catarina anunciando aviso meteorológico de temporais com rajadas de vento e granizo
Arte institucional: Defesa Civil de Santa Catarina — peça gráfica do boletim de aviso meteorológico, não fotografia do evento, do portal da SDC/SC

O que a Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil de Santa Catarina fez entre 22 e 26 de agosto não foi um alerta: foi uma cadeia. Cinco dias seguidos de boletins encadeados, arquivados publicamente na página de avisos da SDC/SC — frio intenso entre 22 e 24, mar agitado e ressaca em avisos sucessivos de 22-23, 23-25, 24-27, 25-28 e 26-28 — e, ao meio-dia de 26/08, a observação meteorológica nº 152/2026, anunciando temporais com vendavais e granizo entre a tarde/noite de sexta-feira (28) e a manhã de sábado (29). Nenhuma prefeitura catarinense entrou nesse fim de semana sem informação: o aviso de vendaval chegou com 48 horas de antecedência.

O conteúdo do boletim de 26/08 é operacional, não genérico. Ele classifica o risco como moderado (amarelo) para destelhamentos, danos à rede elétrica, queda de galhos e árvores e alagamentos, e nomeia as regiões: Planalto Sul, Litoral, Grande Oeste, Planalto Norte, Vale do Itajaí, Grande Florianópolis e Litoral Norte. A previsão para cinco dias publicada no mesmo dia vai adiante e eleva a leitura de sexta-feira para “risco moderado a pontualmente alto para destelhamentos”, com máximas de 35 °C no Oeste e 33 °C no Vale do Itajaí no mesmo dia em que a instabilidade chega, e com a frente avançando por todo o estado no domingo (30). No mar, o boletim marítimo nº 151/2026, de 25/08, projetava ondulação de sul entre 2,0 e 3,0 metros próximo à costa no Litoral Sul e na Grande Florianópolis, com recomendação literal ao público: “Evite atividades de navegação, pesca, esportes marítimos e banho de mar”. A atualização de 26/08 ajustou para 2,0 a 2,5 metros junto à costa até sexta. Os documentos são assinados por meteorologistas do órgão — Augusto Pereira nos boletins marítimos e na observação meteorológica, Eduardo Cho-Luck na previsão de cinco dias —, o que é autoria de peça técnica oficial, e não declaração dada a repórter.

O ponto de governança não está no granizo previsto para sexta. Está na diferença entre emitir e receber. O sistema estadual entregou informação datada, regionalizada, com tipo de dano esperado e faixa de risco — que é exatamente o insumo de que um plano de contingência de vendaval precisa para ser acionado antes do evento. O gargalo, na esmagadora maioria dos municípios, está do outro lado do cabo: o boletim chega em grupo de WhatsApp, é lido por quem estiver de plantão, e morre ali se ninguém tiver a atribuição formal de convertê-lo em ação.

A pergunta que qualquer secretário ou coordenador municipal deveria conseguir responder sem consultar ninguém é simples e tem quatro partes: existe rotina escrita de leitura diária dos boletins estaduais? Quem é o responsável nominal por essa leitura, e quem o substitui na ausência? Em que horário fixo ela acontece? E o que, exatamente, essa leitura dispara — notificação à secretaria de obras, checagem de abrigos, comunicado às escolas, mobilização de equipe de poda? Sem essas quatro respostas por escrito, o município não tem sistema de alerta. Tem sorte de plantão.

“O estado entregou o aviso com 48 horas de antecedência; se ele morrer num grupo de WhatsApp sem responsável nomeado, o problema não é de previsão, é de rotina”

Fontes

  1. Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil de SC — “Observação meteorológica SDC/SC 26/08 12:00 — temporais com rajadas de vento e granizo entre a sexta-feira (28) e o sábado (29)” — 26/08/2026 — https://www.defesacivil.sc.gov.br/2026/08/26/observacao-meteorologica-sdc-sc-26-08-1200-temporais-com-rajadas-de-vento-e-granizo-entre-a-sexta-feira-28-e-o-sabado-29/
  2. Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil de SC — “Atualização observação marítima SDC/SC 25/08 08:30 — mar agitado entre esta terça (25) e sexta-feira (28)” — 25/08/2026 — https://www.defesacivil.sc.gov.br/2026/08/25/atualizacao-observacao-maritima-sdc-sc-25-08-0830-mar-agitado-entre-esta-terca-25-e-sexta-feira-28/
  3. Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil de SC — “Previsão para os próximos 5 dias (26/08)” — 26/08/2026 — https://www.defesacivil.sc.gov.br/2026/08/26/previsao-para-os-proximos-5-dias-26-08-3/
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