“Esta é a quarta vez”: a enchente que devastou um vilarejo congolês que a Defesa Civil já conhecia de cor
Foto: Stringer/Reuters — da matéria d[o] PBS NewsHour Na noite de quinta-feira, 4 de maio de 2023, chuvas intensas provocaram enchentes e deslizamentos que arrasaram o território de Kalehe, na província de Kivu do Sul, no leste da República Democrática do Congo. O vilarejo de Nyamukubi, às margens do Lago Kivu, foi o mais atingido: […]
04 MAI 2023

Foto: Stringer/Reuters — da matéria d[o] PBS NewsHour
Na noite de quinta-feira, 4 de maio de 2023, chuvas intensas provocaram enchentes e deslizamentos que arrasaram o território de Kalehe, na província de Kivu do Sul, no leste da República Democrática do Congo. O vilarejo de Nyamukubi, às margens do Lago Kivu, foi o mais atingido: centenas de casas desapareceram sob a lama e a água. Até o balanço divulgado no sábado seguinte, 6 de maio, 203 corpos já haviam sido recuperados — número que balanços posteriores de outras organizações, nas semanas seguintes, indicariam ter ultrapassado 400 a 450 mortos e desaparecidos, tornando o episódio um dos desastres mais letais do continente africano naquele ano.
“203 corpos foram recuperados até agora”, declarou Thomas Bakenge, administrador de Kalehe, à imprensa internacional — mas a frase que definiu o caso foi a seguinte, dita pelo mesmo administrador: “esta é a quarta vez que os mesmos rios causam danos”. Não havia, portanto, nenhuma surpresa técnica na tragédia: a região já sabia, por experiência recorrente, que aqueles cursos d’água transbordavam. O que faltou foi um sistema de alerta antecipado funcional e um plano de realocação da população que já vivia, repetidamente, na rota da próxima enchente. Anuarite Zikujuwa, sobrevivente, resumiu o resultado com uma frase que dispensa estatística: “a aldeia inteira foi transformada em terra devastada. Só restam pedras.” O governador de Kivu do Sul, Théo Ngwabidje, confirmou o envio de suprimentos médicos, abrigo e alimentos à região — uma resposta emergencial correta, mas que chegou, mais uma vez, depois do desastre, não antes dele.
Kalehe é um lembrete duro de que a ausência de governança preventiva tem endereço certo: territórios de conflito armado, de atenção institucional historicamente escassa e de baixa cobertura de imprensa, onde desastres “recorrentes e conhecidos” seguem sendo tratados como fatalidade em vez de risco mapeável. Para municípios brasileiros, a pergunta que fica é simples e incômoda: existe, no seu território, algum curso d’água ou encosta que já rompeu “pela quarta vez” — e que ainda não tem um sistema de alerta formal, uma rota de evacuação testada, ou um plano de realocação das famílias que moram na área de risco? Um histórico repetido de desastre no mesmo lugar não é mau azar: é um sinal, ignorado, de que a prevenção precisa ser prioridade orçamentária, não resposta emergencial.
“‘Esta é a quarta vez que os mesmos rios causam danos’ — Thomas Bakenge, administrador de Kalehe, sobre as enchentes recorrentes em Nyamukubi, Kivu do Sul”
Fontes
- PBS NewsHour — “Floods, landslides in Congo leave over 200 dead, many more missing” — 06/05/2023 — https://www.pbs.org/newshour/world/floods-landslides-in-congo-leave-over-200-dead-many-more-missing
- BBC — “DR Congo floods: Digging through mud to find relatives” — 06/05/2023 — https://feeds.bbci.co.uk/news/world-africa-65521521
- ReliefWeb — “DR Congo: Floods and Landslides – May 2023” — 05/2023 — https://reliefweb.int/disaster/fl-2023-000067-cod