Enchentes nos Apalaches do Kentucky matam dezenas e expõem o custo de ignorar regiões pobres na hora do alerta
Foto: Timothy D. Easley/AP — da matéria da NPR Chuvas torrenciais atingiram o leste do Kentucky, nos Estados Unidos, entre 26 e 30 de julho de 2022, com pico na noite de 27 para 28 de julho, provocando uma das piores enchentes da história do estado. Pelo menos 26 mortes haviam sido confirmadas até 31 […]
28 JUL 2022

Foto: Timothy D. Easley/AP — da matéria da NPR
Chuvas torrenciais atingiram o leste do Kentucky, nos Estados Unidos, entre 26 e 30 de julho de 2022, com pico na noite de 27 para 28 de julho, provocando uma das piores enchentes da história do estado. Pelo menos 26 mortes haviam sido confirmadas até 31 de julho, número que subiria posteriormente para 43, segundo balanço divulgado meses depois pela NPR. Centenas de residências foram destruídas ou danificadas e milhares de moradores ficaram temporariamente desalojados na região dos Apalaches, uma área montanhosa, rural e historicamente uma das mais pobres do país, conforme reportagem do Washington Post. A força da correnteza arrastou casas inteiras, veículos e um ônibus escolar, que foi encontrado destruído às margens do riacho Lost Creek, na cidade de Ned.
O governador do Kentucky, Andy Beshear, deu o tom da tragédia em entrevista ao programa “Meet the Press”, da rede NBC, dizendo: “nosso número de mortos está em 26 agora, mas eu sei de vários corpos adicionais”. Ele completou, em uma das falas mais citadas pela imprensa americana na época: “com o nível da água, vamos encontrar corpos por semanas, muitos deles arrastados centenas de metros”. Ao tratar da reconstrução da região, Beshear foi direto sobre a origem dos recursos necessários: “se realmente queremos ser mais resilientes, vai ser necessário um grande investimento federal” — reconhecendo publicamente que a capacidade fiscal local, sozinha, não seria suficiente para reduzir o risco em enchentes futuras.
Para gestores públicos brasileiros, o caso do Kentucky ilustra um padrão que se repete em municípios de menor porte e menor arrecadação: regiões pobres tendem a ter sistemas de alerta antecipado mais frágeis, menos sirenes, menos pluviômetros e menor capacidade de evacuação rápida — o que transforma um mesmo volume de chuva em um desastre proporcionalmente maior do que em áreas urbanas mais ricas. A lição prática é que investimento em prevenção (monitoramento de encostas e cursos d’água, planos de evacuação testados, comunicação de risco em linguagem acessível) não pode ser tratado como item negociável no orçamento de defesa civil de cidades pequenas — é justamente nelas, com menos redundância de recursos, que a ausência desses sistemas mais custa vidas.
“Com o nível da água, vamos encontrar corpos por semanas, muitos deles arrastados centenas de metros — Andy Beshear, governador do Kentucky, em entrevista ao Meet the Press, da NBC”
Fontes
- NPR — “Kentucky flood deaths” — 30/07/2022 — https://www.npr.org/2022/07/30/1114706847/kentucky-flood-deaths
- Washington Post — “Kentucky flood, climate change” — 31/07/2022 — https://www.washingtonpost.com/nation/2022/07/31/kentucky-flood-climate/
- Wikipédia — “2022 Appalachian floods” — https://en.wikipedia.org/wiki/2022_Appalachian_floods
- National Weather Service (NWS Jackson, KY) — “July 2022 Flooding” — https://www.weather.gov/jkl/July2022Flooding