Enchente histórica devasta Lismore e sudeste da Austrália, mata 24 e escancara falha nos alertas até em país rico
Foto: Sophie McNeill/Human Rights Watch — da matéria da Human Rights Watch Em 28 de fevereiro de 2022, Lismore, no norte de Nova Gales do Sul, viveu a pior enchente já registrada em sua história, superando a marca histórica de 1954: o rio Wilsons subiu mais de 2 metros acima do recorde anterior. O episódio […]
28 FEV 2022

Foto: Sophie McNeill/Human Rights Watch — da matéria da Human Rights Watch
Em 28 de fevereiro de 2022, Lismore, no norte de Nova Gales do Sul, viveu a pior enchente já registrada em sua história, superando a marca histórica de 1954: o rio Wilsons subiu mais de 2 metros acima do recorde anterior. O episódio foi o ápice de uma sequência crítica de chuvas que atingiu o leste da Austrália entre 22 de fevereiro e 30 de março, alagando também o sudeste de Queensland — onde o rio Brisbane chegou a 3,8 metros e mais de 23.400 imóveis foram inundados só na capital estadual, em 177 subúrbios, segundo a Wikipedia (en). Em Gympie, o rio Mary atingiu 22,96 metros — a pior enchente da cidade desde 1893 —, com cerca de 3.600 casas inundadas. No total, o desastre deixou 24 mortos confirmados, mais de 20 mil casas inundadas no sudeste de Queensland, quase mil escolas fechadas e mais de 51 mil imóveis sem energia. Em Lismore, cerca de 270 pessoas passaram a noite em centros de evacuação; em Gympie, foram 550.
O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, resumiu a magnitude do desastre: “estas são enchentes como não víamos na memória viva de ninguém, nem mesmo antes disso.” O premiê de Nova Gales do Sul, Dominic Perrottet, prometeu que o governo estadual “não pouparia nenhum dólar” na reconstrução. Mas foi o relato de moradores como Lauren De Groot, sobrevivente em Lismore, que revelou a velocidade brutal da água: “Às quatro da manhã, a água já lambia nossos pés”, contou, descrevendo como sua família “escapou com vida”. Ela relembrou o desespero de vizinhos presos na enchente — “ouvi amigos sufocarem em pedidos angustiados para que conseguíssemos sair vivos” — e o momento em que um deles foi resgatado: “o som dele gritando ‘LAUREN’ enquanto se aproximava do que restou do nosso prédio é algo que nunca vou esquecer”, relatou à BroadAgenda.
Meses depois, um relatório da Human Rights Watch revelou o que os números de Lismore escondiam: pessoas com deficiência e idosos ficaram presos dentro de casa enquanto a água subia, sem alerta a tempo nem apoio para evacuar — entre eles um homem cadeirante cercado pela enxurrada e um morador de 82 anos que foi instruído a sair, mas não recebeu nenhuma assistência para fazê-lo. É a prova de que sistemas de alerta tecnicamente corretos não bastam se não chegam, de forma acionável, às pessoas mais vulneráveis. Para gestores municipais brasileiros, a lição é direta: um plano de defesa civil só é completo se incluir um cadastro atualizado de moradores com mobilidade reduzida, idosos e pessoas com deficiência em áreas de risco, com rota e responsável de evacuação definidos previamente — porque o alerta genérico por SMS ou sirene não resgata ninguém sozinho.
“Ouvi amigos sufocarem em pedidos angustiados para que conseguíssemos sair vivos — Lauren De Groot, moradora de Lismore, sobrevivente da enchente de 28 de fevereiro de 2022”
Fontes
- Wikipedia (EN) — “2022 eastern Australia floods” — 2022 — https://en.wikipedia.org/wiki/2022_eastern_Australia_floods
- Human Rights Watch — “Australia: Flood Response Failed to Protect Most at Risk” — 03/11/2022 — https://www.hrw.org/news/2022/11/03/australia-flood-response-failed-protect-most-risk
- BroadAgenda — “Lismore floods: ‘We escaped with our lives'” — 2022 — https://www.broadagenda.com.au/2022/lismore-floods-we-escaped-with-our-lives/
- Museums of History NSW — “The 2022 NSW Floods” — 2022 — https://mhnsw.au/stories/general/2022-nsw-floods/