Três deslizamentos, um só ponto: a mina que a chuva atingiu de novo, e de novo
Foto: AP (foto de arquivo, maio de 2025, do mesmo complexo minerário) — da matéria da Al Jazeera Um deslizamento de terra atingiu, entre 3 e 4 de março de 2026, a mina de coltan de Rubaya, na província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo (RD Congo), matando mais de 200 pessoas, […]
04 MAR 2026

Foto: AP (foto de arquivo, maio de 2025, do mesmo complexo minerário) — da matéria da Al Jazeera
Um deslizamento de terra atingiu, entre 3 e 4 de março de 2026, a mina de coltan de Rubaya, na província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo (RD Congo), matando mais de 200 pessoas, segundo o Al Jazeera e a Bloomberg. O ministro de Minas da RD Congo, Louis Watum Kabamba, confirmou que “mais de 200 pessoas, incluindo crianças, morreram.” A região é controlada pelo grupo rebelde M23, que disputa publicamente a contagem oficial de vítimas: Fanny Kaj, autoridade do M23 na área, e um funcionário do M23 que não se identificou reconheceram as fortes chuvas como causa do deslizamento, mas questionaram os números divulgados pelo governo central. O minerador Ibrahim Taluseke, que trabalhava no local, relatou o momento do colapso. Menos de uma semana depois, em 7 de março, um TERCEIRO deslizamento atingiu o mesmo complexo minerário de Rubaya, segundo a Mongabay e a Xinhua — a área já havia registrado um deslizamento anterior em fevereiro, tornando este o terceiro evento em pouco mais de um mês no mesmo ponto geográfico.
O que a recorrência de três deslizamentos no mesmo complexo minerário em poucas semanas evidencia é a existência de um risco geotécnico conhecido e não corrigido: uma mina de extração informal ou semi-informal, em encosta já fragilizada por escavações anteriores, sujeita a chuvas intensas recorrentes, onde a resposta a cada deslizamento aparentemente não incluiu a interdição da área ou a correção da condição estrutural que causou o evento anterior — permitindo que trabalhadores retornassem ao mesmo ponto de risco a tempo de serem atingidos por um novo colapso. A disputa entre o governo central e a autoridade de fato local (o grupo M23) sobre a contagem de vítimas soma-se a esse quadro como um segundo obstáculo: em território de controle disputado, nem mesmo o registro básico de quantas pessoas morreram é consensual, o que compromete qualquer avaliação posterior de eficácia da resposta.
Para municípios brasileiros com atividade de mineração formal ou informal em encostas — um cenário presente em regiões de garimpo e extração mineral de pequena escala —, o caso de Rubaya reforça uma lição de governança direta: um deslizamento em área de mineração não deve ser tratado como evento isolado encerrado com o resgate das vítimas; a mesma encosta que cedeu uma vez, sob a mesma condição de uso e sem intervenção estrutural, tende a ceder de novo sob nova chuva — e a decisão de manter ou suspender a atividade extrativa no local após um primeiro colapso é, em si, uma decisão de defesa civil, não apenas uma decisão econômica ou de ordem pública.
“Fevereiro, 3-4 de março, 7 de março: três deslizamentos, um só ponto no mapa. A pergunta que a recorrência força não é só quantos morreram — é por que a atividade continuou no mesmo lugar depois do primeiro colapso.”
Fontes
- Al Jazeera — “More than 200 feared dead after landslide hits DRC coltan mine” — 04/03/2026 — https://www.aljazeera.com/news/2026/3/4/more-than-200-feared-dead-after-landslide-hits-drc-coltan-mine
- Bloomberg — “Congo Mine Landslide Death Toll” — 05/03/2026 — https://www.bloomberg.com/news/articles/2026-03-05/congo-mine-landslide-death-toll
- Mongabay — cobertura do terceiro deslizamento em Rubaya — 07/03/2026 — https://news.mongabay.com/2026/03/rubaya-mine-third-landslide/