“Perdemos tudo, só a roupa do corpo”: a Colômbia que decidiu recuperar zonas úmidas em vez de só reconstruir
Foto: AP/Fernando Vergara — da matéria da Mongabay Chuvas atipicamente intensas para fevereiro — mês tradicionalmente seco no Caribe colombiano — provocaram o transbordamento do Rio Sinú e inundações catastróficas em Córdoba, Sucre e outros departamentos do norte da Colômbia a partir de 8 de fevereiro de 2026. Em 11 de fevereiro, o presidente Gustavo […]
15 FEV 2026

Foto: AP/Fernando Vergara — da matéria da Mongabay
Chuvas atipicamente intensas para fevereiro — mês tradicionalmente seco no Caribe colombiano — provocaram o transbordamento do Rio Sinú e inundações catastróficas em Córdoba, Sucre e outros departamentos do norte da Colômbia a partir de 8 de fevereiro de 2026. Em 11 de fevereiro, o presidente Gustavo Petro decretou, pelo Decreto nº 0150/2026, estado de emergência econômica, social e ecológica em oito departamentos — Córdoba, Antioquia, La Guajira, Sucre, Bolívar, Cesar, Magdalena e Chocó —, com 69.235 famílias afetadas (252.233 pessoas) e 61 municípios atingidos, segundo o Cambio Colombia. Até o fechamento da semana, em 15/02, o balanço subiu para 17 mortos e mais de 250 mil pessoas afetadas, segundo a La Jornada. A diretora do instituto meteorológico colombiano (Ideam), Ghislaine Echeverry, classificou a chuva como “sem precedentes”, observando que não é usual que frentes frias do Hemisfério Norte cheguem tão intensas ao Caribe colombiano. O governador de Córdoba, Erasmo Zuleta Bechara, declarou: “a situação que Córdoba atravessa hoje não tem precedentes na história; não temos registros de magnitude semelhante” — e pediu diretamente ao presidente que o próximo Conselho de Ministros fosse realizado no território atingido. Petro anunciou que usará a Lei 1523 para reordenar o território e recuperar mais de 50 mil hectares de zonas úmidas, com a Agência Nacional de Terras liderando o esforço — projetando que a reconstrução exigirá “pelo menos dez bilhões” de pesos nos próximos meses. Um morador desalojado de Córdoba, Rodolfo Ortega, relatou: “perdemos bastante, os utensílios se perderam… vamos só com o que temos: a roupa do corpo, nada mais.”
O que a decisão de recuperar zonas úmidas evidencia, além da magnitude do desastre em si, é uma escolha de resposta que vai além da reconstrução do que foi destruído: em vez de apenas restaurar casas, pontes e estradas ao estado anterior, o governo colombiano optou por usar a mesma emergência como justificativa legal para reverter décadas de ocupação de áreas que funcionavam naturalmente como bacias de amortecimento de cheias — zonas úmidas que, uma vez recuperadas, reduzem o risco de que a próxima chuva intensa produza o mesmo nível de dano. É uma resposta que reconhece explicitamente que a vulnerabilidade da região não é apenas meteorológica, mas também territorial: décadas de ocupação de área de várzea tornaram o impacto de uma chuva “sem precedentes” ainda mais catastrófico do que seria em condições de uso da terra mais conservadoras.
Para municípios brasileiros com áreas de várzea, mangue ou planície de inundação ocupadas ao longo de décadas, a lição de governança deste caso é que a resposta a uma enchente catastrófica pode — e talvez deva — incluir a reversão parcial da ocupação territorial que amplificou o dano, não apenas a reconstrução da infraestrutura destruída no mesmo lugar e sob a mesma configuração de uso do solo: usar o momento de emergência para negociar e viabilizar legalmente a recuperação de áreas de amortecimento natural é uma decisão politicamente difícil, mas reduz a vulnerabilidade estrutural da região para o próximo evento, em vez de apenas restaurar a vulnerabilidade anterior.
“Perdemos tudo, só a roupa do corpo” — a frase de um morador desalojado resume a emergência. A resposta do governo colombiano não parou na reconstrução: decidiu recuperar 50 mil hectares de zonas úmidas ocupadas ao longo de décadas, porque reconstruir a mesma vulnerabilidade no mesmo lugar só adia a próxima enchente.”
Fontes
- Cambio Colombia — “Petro decreta emergencia económica y social en ocho departamentos por las inundaciones” — 12/02/2026 — https://cambiocolombia.com/poder/articulo/2026/2/gobierno-declara-emergencia-en-ocho-departamentos-por-el-impacto-devastador-de-las-inundaciones/
- La Jornada (via Europa Press) — “Inundaciones en Colombia dejan al menos 17 fallecidos y más de 250 mil damnificados” — 15/02/2026 — https://www.jornada.com.mx/noticia/2026/02/15/mundo/inundaciones-en-colombia-dejan-17-fallecidos-y-mas-de-250-mil-damnificados
- Mongabay (em espanhol) — “Inusuales lluvias en Colombia dejan al menos 15 muertos y 69 mil familias afectadas por inundaciones” — 12/02/2026 — https://es.mongabay.com/short-article/2026/02/inusuales-lluvias-colombia-muertos-inundaciones/