“Não há presença do governo”: o prefeito que criticou publicamente o Estado durante o incêndio
Foto: Juan Gonzalez/Reuters — da matéria da PBS Newshour Incêndios florestais nas regiões de Biobío e Ñuble, no centro-sul do Chile, iniciados em 16 de janeiro de 2026, levaram o presidente Gabriel Boric a decretar estado de catástrofe dois dias depois, com balanço então de 18 mortos, segundo a PBS Newshour. Ainda em 18 de […]
27 JAN 2026

Foto: Juan Gonzalez/Reuters — da matéria da PBS Newshour
Incêndios florestais nas regiões de Biobío e Ñuble, no centro-sul do Chile, iniciados em 16 de janeiro de 2026, levaram o presidente Gabriel Boric a decretar estado de catástrofe dois dias depois, com balanço então de 18 mortos, segundo a PBS Newshour. Ainda em 18 de janeiro, o prefeito de Penco, Rodrigo Vera, criticou publicamente a ausência do governo central em plena emergência: “querido presidente Boric, do fundo do meu coração, estou aqui há quatro horas, uma comunidade está queimando e não há presença do governo.” Um suspeito foi preso em 21 de janeiro em Perquenco, na região da Araucanía, por uso de acelerante líquido em plantação de trigo. Em 27 de janeiro — já dentro da semana desta edição —, o balanço estava em 20 a 21 mortos e 50 mil evacuados, com mais de 280 incêndios registrados (139 controlados, 48 ainda ativos) e mais de 64 mil hectares destruídos nas regiões de Ñuble, Biobío, La Araucanía e Maule, segundo o Peoples Dispatch. O relatório oficial da ONU no Chile, de 4 de fevereiro, chamou os incêndios de “entre os mais letais da história do país”, com o número final estabilizado em 21 mortos, mais de 4.100 casas destruídas e mais de 34 mil hectares queimados. O diretor do Laboratório de Incêndios Florestais da Universidade do Chile, Miguel Castillo, resumiu a escala do episódio: “estamos quase triplicando a área afetada, mas não o número de incêndios.” Bombeiros do México, Uruguai, Argentina e Espanha reforçaram o combate às chamas.
O que a fala do prefeito Vera evidencia, além da gravidade do incêndio em si, é que a crítica pública de uma autoridade local ao governo central, feita em pleno andamento da crise, pode funcionar como um mecanismo legítimo de responsabilização — não como um gesto de desordem institucional. Em vez de aguardar o fim da emergência para avaliar formalmente a resposta, a declaração de Vera tornou pública, em tempo real, uma lacuna de coordenação entre os níveis de governo, aumentando a pressão por reforço imediato de recursos justamente no momento em que eles ainda podiam salvar vidas e propriedades.
Para prefeitos e gestores municipais brasileiros que dependem de apoio estadual ou federal durante emergências, a lição de governança deste caso é que comunicar publicamente uma lacuna de resposta durante a própria crise — de forma factual e não apenas retórica — é uma ferramenta legítima de gestão, não um sinal de fracasso administrativo: o silêncio diplomático sobre a ausência de apoio externo pode custar tempo de resposta que, em incêndios florestais de propagação rápida, não é recuperável depois.
“‘Uma comunidade está queimando e não há presença do governo’ — a frase do prefeito de Penco, dita em pleno incêndio, não foi uma crítica retórica. Foi um pedido de socorro tornado público, no momento exato em que ainda podia mudar o resultado.”
Fontes
- PBS Newshour (via Reuters/AP) — “Wildfires in Chile leave 18 dead and force thousands to flee” — 18/01/2026 — https://www.pbs.org/newshour/amp/world/wildfires-in-chile-leave-18-dead-and-force-thousands-to-flee
- Peoples Dispatch — “More than 20 dead and 50,000 evacuated due to fires in Chile” — 27/01/2026 — https://peoplesdispatch.org/2026/01/27/more-than-20-dead-and-50000-evacuated-due-to-fires-in-chile/
- ONU Chile — “Incendios forestales 2026: Reporte de situación N°3” — 04/02/2026 — https://chile.un.org/es/309462-incendios-forestales-2026-reporte-de-situaci%C3%B3n-n%C2%B03