“Não podemos apostar com vidas”: como manter 4 mil pessoas fora de casa por semanas sem fadiga de evacuação
Foto: Xinhua/Rouelle Umali — da matéria da Xinhua O vulcão Mayon, na província de Albay, Filipinas, entrou em estado de agitação em 6-7 de janeiro de 2026, com o Instituto Filipino de Vulcanologia e Sismologia (Phivolcs) mantendo o Alerta Nível 3 (de uma escala de 0 a 5) continuamente ao longo de todo o mês. […]
24 JAN 2026

Foto: Xinhua/Rouelle Umali — da matéria da Xinhua
O vulcão Mayon, na província de Albay, Filipinas, entrou em estado de agitação em 6-7 de janeiro de 2026, com o Instituto Filipino de Vulcanologia e Sismologia (Phivolcs) mantendo o Alerta Nível 3 (de uma escala de 0 a 5) continuamente ao longo de todo o mês. A crise se intensificou nas semanas seguintes: em 16 de janeiro, as emissões de dióxido de enxofre atingiram 4.970 toneladas por dia — “a maior média registrada nos últimos 15 anos”, segundo relatório do Global Volcanism Program (Smithsonian Institution). Entre 15 e 21 de janeiro, foram registrados de 235 a 340 eventos de queda de blocos e de 45 a 72 correntes de densidade piroclástica por dia; só em 20 de janeiro, 83 terremotos vulcânicos foram contabilizados. Por volta de 21 de janeiro, cerca de 4.092 pessoas (1.114 famílias) já estavam evacuadas para 14 abrigos, com mais 51 hospedadas com parentes, segundo o mesmo relatório técnico. Em reportagem publicada em 24 de janeiro, a Xinhua relatou que a chuva de cinzas já havia atingido Legazpi City e municípios vizinhos, segundo Roderick Mendoza, chefe de Segurança Pública de Albay. Tim Florece, oficial de informações públicas de Camalig, resumiu a postura das autoridades diante de mais de duas semanas de evacuação contínua: “não podemos apostar com vidas” — alertando que uma eventual elevação para o Alerta Nível 4 forçaria evacuações ainda mais amplas. Leonilo Duran, morador de 18 anos abrigado havia semanas junto com outras 33 pessoas, descreveu a relação de longo prazo da comunidade com o risco: “viver com o Mayon significa se adaptar ao seu temperamento.” Nenhuma morte ou ferimento foi registrado em nenhuma das fontes consultadas até o fechamento desta edição.
O que a duração desta crise evidencia, além da atividade vulcânica em si, é um desafio de governança distinto do de uma evacuação de emergência pontual: manter milhares de pessoas fora de suas casas por semanas seguidas, sem uma data de retorno definida, cria um risco real de fadiga de evacuação — o fenômeno em que moradores, cansados da rotina do abrigo e sem eventos visíveis imediatos que justifiquem a permanência fora de casa, começam a retornar por conta própria às áreas de risco antes que a autoridade competente declare o fim da crise. A fala de Florece — recusando “apostar com vidas” mesmo sem uma escalada visível imediata — e a de Duran — descrevendo a convivência com o vulcão como algo a que se “adaptar” — mostram duas faces da mesma tensão: a autoridade que precisa manter rigor por semanas sem perder credibilidade, e o morador que precisa sustentar a disciplina de permanecer evacuado por tempo indeterminado.
Para municípios brasileiros com riscos de duração prolongada — encostas monitoradas por semanas após um primeiro alerta geotécnico, ou áreas evacuadas preventivamente por risco de rompimento de barragem, por exemplo —, a lição de governança deste caso é que a comunicação de risco precisa ser dosada de forma diferente em evacuações longas: reforçar periodicamente, com dados técnicos concretos (como as emissões de SO2 ou a contagem diária de eventos, no caso do Mayon), por que a evacuação continua sendo necessária, para reduzir o risco de que a população interprete a ausência de uma catástrofe imediata como sinal de que o perigo passou.
“‘Viver com o Mayon significa se adaptar ao seu temperamento’ — a frase de um morador de 18 anos, abrigado havia semanas, resume o desafio por trás de qualquer evacuação de longa duração: manter o rigor da resposta sem que a rotina do risco vire motivo para relaxar a disciplina de ficar longe dele.”
Fontes
- Xinhua — “Feature: A race against Mayon Volcano’s fiery breath” — 24/01/2026 — https://english.news.cn/20260124/e08b78e9200b4b68820bdb28a0a12be1/c.html
- Xinhua — “Philippines’ Mayon Volcano in state of unrest” — 23/01/2026 — https://english.news.cn/20260123/2b18a66b16d04516accb92cf78faabc2/c.html
- Global Volcanism Program (Smithsonian Institution) — Relatório semanal de atividade vulcânica, 15-21/01/2026 — https://volcano.si.edu/showreport.cfm?wvar=GVP.WVAR20260115-273030