O furacão mais mortal dos EUA desde Katrina: como enchentes no interior surpreenderam os Apalaches
Foto: Sean Rayford/Getty Images — da matéria “Hurricane Helene’s death toll tops 160 as Southeast digs out from storm’s devastation” da CBS News Na noite de 26 de setembro de 2024, o furacão Helene tocou o solo como categoria 4 na região do Big Bend, na Flórida — o terceiro furacão a atingir aquele trecho […]
27 SET 2024

Foto: Sean Rayford/Getty Images — da matéria “Hurricane Helene’s death toll tops 160 as Southeast digs out from storm’s devastation” da CBS News
Na noite de 26 de setembro de 2024, o furacão Helene tocou o solo como categoria 4 na região do Big Bend, na Flórida — o terceiro furacão a atingir aquele trecho da costa em apenas 13 meses. Mas o pior do desastre não ficou no litoral: o sistema avançou pelo interior dos Estados Unidos, cruzando Geórgia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Tennessee e Virgínia, e despejou chuvas catastróficas sobre as montanhas dos Apalaches, provocando enchentes repentinas e deslizamentos a centenas de quilômetros da costa. Em balanço de 1º de outubro, o número de mortos já passava de 161: Carolina do Norte concentrou o maior número, com pelo menos 77 óbitos — 57 apenas no condado de Buncombe, onde fica a cidade de Asheville —, seguida por Carolina do Sul (36), Geórgia (25+), Flórida (13), Tennessee (6) e Virgínia (2). Tornou-se, com isso, um dos furacões mais mortais a atingir os Estados Unidos continentais desde o Katrina, em 2005.
A dimensão da tragédia em uma região historicamente vista como “segura” de furacões pegou autoridades de surpresa. O governador da Carolina do Norte, Roy Cooper, resumiu o momento: “This is an unprecedented tragedy that requires an unprecedented response” (“Esta é uma tragédia sem precedentes que exige uma resposta sem precedentes”). O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, comentou a dificuldade de sequer localizar moradores isolados nas montanhas: “God willing they’re alive, but there’s no way to contact them” (“Se Deus quiser estão vivos, mas não há como contatá-los”). E a administradora da Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA), Deanne Criswell, admitiu que a magnitude do desastre superou qualquer plano de contingência: “I don’t know that anybody could be fully prepared for the amount of flooding and landslides that they are experiencing right now” (“Não sei se alguém poderia estar totalmente preparado para o volume de enchentes e deslizamentos que estão enfrentando agora”).
O caso de Helene carrega uma lição de governança direta para o Brasil: o maior número de mortos não ocorreu na zona costeira diretamente atingida pelo furacão, mas nas montanhas do interior, a centenas de quilômetros dali — em cidades como Asheville, que jamais haviam se preparado como “área de risco de furacão”. É exatamente o padrão que ameaça municípios brasileiros de regiões serranas: eles não se percebem como alvo de sistemas climáticos que se formam ou se intensificam longe de suas fronteiras (chuvas associadas a ciclones extratropicais, bandas de instabilidade, ou mesmo remanescentes de sistemas tropicais), e por isso deixam de investir em alerta antecipado, mapeamento de encostas e rotas de fuga para chuva extrema — até que a enchente chega pelo rio, não pelo mar.
“I don’t know that anybody could be fully prepared for the amount of flooding and landslides that they are experiencing right now.” — Deanne Criswell, administradora da FEMA, sobre a devastação nas montanhas dos Apalaches, longe do litoral onde o furacão Helene tocou o solo”
Fontes
- CBS News — “Hurricane Helene’s death toll tops 160 as Southeast digs out from storm’s devastation” — atualizado 01/10/2024 — https://www.cbsnews.com/news/hurricane-helene-path-florida/
- Axios — “Hurricane Helene leaves ‘unimaginable’ destruction across 5 states as death toll tops 100” — 30/09/2024 — https://www.axios.com/2024/09/30/hurricane-helene-death-toll-southeast-flood-damage
- NOAA Climate.gov — “Hurricane Helene’s extreme rainfall and catastrophic inland flooding” — https://www.climate.gov/news-features/event-tracker/hurricane-helenes-extreme-rainfall-and-catastrophic-inland-flooding