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Internacional

90% das vítimas eram mulheres e crianças: o padrão de mortalidade que o terremoto de Herat expôs no Afeganistão

Foto: Save the Children via AP — da matéria da Al Jazeera Na manhã de 7 de outubro de 2023, às 11h11 no horário local, um terremoto de magnitude 6,3 atingiu o distrito de Zinda Jan, na província de Herat, oeste do Afeganistão. O abalo, seguido por réplicas fortes em 11 e 15 de outubro, […]

07 OUT 2023
90% das vítimas eram mulheres e crianças: o padrão de mortalidade que o terremoto de Herat expôs no Afeganistão
Mulher afegã caminha com os filhos em meio aos escombros após terremoto na província de Herat

Foto: Save the Children via AP — da matéria da Al Jazeera

Na manhã de 7 de outubro de 2023, às 11h11 no horário local, um terremoto de magnitude 6,3 atingiu o distrito de Zinda Jan, na província de Herat, oeste do Afeganistão. O abalo, seguido por réplicas fortes em 11 e 15 de outubro, destruiu dezenas de aldeias inteiras construídas com casas de barro e tijolo cru, sem qualquer reforço estrutural contra sismos. Em balanço divulgado em 19 de outubro, a Organização Mundial da Saúde contabilizou 1.482 mortos, entre 2.100 e 2.400 feridos e 114 mil pessoas precisando de ajuda humanitária imediata — mais que o dobro do número de pessoas diretamente atingidas (43.300) —, no que se tornou um dos terremotos mais mortais do Afeganistão em anos.

O dado mais revelador do desastre, porém, não é o total de vítimas, mas quem elas eram. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 90% das vítimas fatais foram mulheres e crianças, que estavam dentro de casa — em moradias de barro que desabaram — no momento do tremor. O padrão, segundo especialistas locais, reflete uma combinação de arquitetura de risco e norma social: em boa parte do Afeganistão rural, mulheres passam a maior parte do dia dentro de casa, enquanto os homens trabalham no campo. “Terremotos são uma questão de minutos e segundos; a demora para escapar pode causar mais vítimas entre as mulheres”, explicou à imprensa internacional o médico afegão Abdul Qayum Raheem. Susan Ferguson, representante especial da ONU Mulheres no Afeganistão, alertou que a resposta ao desastre precisaria reconhecer essa desigualdade de exposição ao risco — ou corria o risco de repeti-la nas fases seguintes de reconstrução.

Para gestores de defesa civil, Herat expõe dois desafios simultâneos e conectados. O primeiro é técnico: construção civil resiliente em zonas sísmicas de baixa renda, sob um governo — o Talibã — cuja capacidade de resposta humanitária é limitada pelo isolamento internacional e por sanções, o que atrasou a chegada de ajuda especializada. O segundo é de dados: a reclusão doméstica das mulheres afegãs, somada à ausência de registros populacionais confiáveis, dificultou dimensionar corretamente quantas pessoas — e quem — precisava de resgate em cada aldeia. Para municípios brasileiros, o paralelo é direto: cadastros atualizados de população vulnerável (idosos, pessoas com deficiência, moradores de áreas de risco) não são burocracia — são a diferença entre uma equipe de resgate que sabe exatamente onde procurar e uma que chega tarde demais.

“‘Mulheres e meninas voltarão a sofrer o pior deste desastre, por isso precisamos garantir que suas necessidades estejam no centro da resposta e da recuperação’ — Susan Ferguson, representante especial da ONU Mulheres no Afeganistão”

Fontes

  • ONU News — “Terremoto de magnitude 6,3 deixa pelo menos 2 mil mortos no Afeganistão” — 08/10/2023 — https://news.un.org/pt/story/2023/10/1821507
  • PBS NewsHour — “Over 90 percent of people killed by western Afghanistan quake were women and children, UN says” — 12/10/2023 — https://www.pbs.org/newshour/world/over-90-percent-of-people-killed-by-western-afghanistan-quake-were-women-and-children-un-says
  • Al Jazeera — “Photos: Afghanistan hit by another earthquake in Herat region” — 15/10/2023 — https://www.aljazeera.com/gallery/2023/10/15/photos-afghanistan-hit-by-another-earthquake-in-herat-region