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Internacional

Entre 7,8 mil e 20 mil mortos: as barragens que ninguém reformou e a enchente que apagou um quinto de uma cidade líbia

Foto: The Press Office of Libyan Prime Minister/AFP — da matéria da Al Jazeera Na madrugada de 11 de setembro de 2023, por volta das 3h no horário local, uma parede de água varreu o centro de Derna, no leste da Líbia. Horas antes, a tempestade mediterrânea Daniel — carregada de chuvas extremas — havia […]

11 SET 2023
Entre 7,8 mil e 20 mil mortos: as barragens que ninguém reformou e a enchente que apagou um quinto de uma cidade líbia
Pessoas inspecionam área destruída pela enchente na cidade de Derna, Líbia

Foto: The Press Office of Libyan Prime Minister/AFP — da matéria da Al Jazeera

Na madrugada de 11 de setembro de 2023, por volta das 3h no horário local, uma parede de água varreu o centro de Derna, no leste da Líbia. Horas antes, a tempestade mediterrânea Daniel — carregada de chuvas extremas — havia sobrecarregado duas barragens de terra construídas nos anos 1970 no alto do Wadi Derna, o vale que corta a cidade. As duas estruturas romperam em sequência, liberando de uma só vez um volume de água comparado por autoridades locais a um tsunami. Bairros inteiros, com prédios, pontes e milhares de pessoas dentro de casa, foram arrastados até o Mediterrâneo em poucos minutos. Segundo o ministro da Aviação líbio, Hisham Chkiouat, cerca de 25% da cidade “desapareceu”. A Organização Internacional para as Migrações contabilizou cerca de 30 mil pessoas deslocadas já nos primeiros dias após o desastre.

Os números de mortos divergem de forma extrema, e cada balanço carrega a marca da fonte que o produziu — é importante não tratar nenhum deles como definitivo isoladamente. O governo local de Derna falou em mais de 7.800 mortos e desaparecidos confirmados; o Escritório da ONU para Coordenação de Assuntos Humanitários chegou a divulgar, em 14 de setembro, a cifra de 11.300 mortos, número depois retirado por falta de confirmação em campo. Já o prefeito da cidade, Abdel-Moneim al-Ghaithi, chegou a estimar entre 18 mil e 20 mil mortos — quase um quinto da população de Derna antes da catástrofe. Análises independentes feitas em 2024 apontam uma faixa mais provável entre 14 mil e 24 mil vítimas. Sobre a raiz institucional do desastre, o secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, Petteri Taalas, resumiu o problema por trás da tragédia, ao comentar a ausência de um serviço meteorológico funcional capaz de emitir alertas.

Para gestores municipais brasileiros, Derna é o retrato do pior cenário possível quando manutenção de infraestrutura crítica, alerta meteorológico e comando institucional falham ao mesmo tempo. As duas barragens tinham alertas técnicos anteriores sobre risco de colapso e nunca foram reformadas; a Líbia, dividida entre dois governos rivais desde 2014, não contava com um serviço meteorológico nacional funcional nem com um plano municipal de evacuação. A lição não é exclusiva de países fragmentados por conflito: barragens, diques e sistemas de drenagem no Brasil também envelhecem sem inspeção periódica, e municípios a jusante de estruturas hídricas — de barragens de mineração a açudes agrícolas — dependem de que, em algum nível de governo, o laudo técnico vire ação antes de virar tragédia.

“‘If there would have been a normal operating meteorological service, they could have issued the warnings’ — Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM)”

Fontes

  • NPR — “Death toll soars to 11,300 from flooding in Libyan coastal city of Derna” — 14/09/2023 — https://www.npr.org/2023/09/14/1199555068/death-toll-soars-to-11-300-from-flooding-in-libyan-coastal-city-of-derna
  • Al Jazeera — “Photos: More than 1,000 bodies recovered in Libyan city after floods” — 12/09/2023 — https://www.aljazeera.com/gallery/2023/9/12/photos-more-than-1000-bodies-recovered-in-libyan-city-after-floods
  • CNN Brasil — “Enchente catastrófica na Líbia ocorreu em 90 minutos, dizem autoridades” — 16/09/2023 — https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/enchente-catastrofica-na-libia-ocorreu-em-90-minutos-dizem-autoridades/