Um mesmo ciclone, duas respostas: como Bangladesh salvou vidas com evacuação em massa enquanto Myanmar sub-registrava mortes Rohingya
Foto: AP — da matéria da CBS News O Ciclone Mocha tocou o solo na tarde de domingo, 14 de maio de 2023, no litoral do estado de Rakhine, em Myanmar, com ventos que ultrapassaram 217 km/h — um dos ciclones mais fortes já registrados na Baía de Bengala. O balanço oficial divulgado pela junta […]
14 MAI 2023

Foto: AP — da matéria da CBS News
O Ciclone Mocha tocou o solo na tarde de domingo, 14 de maio de 2023, no litoral do estado de Rakhine, em Myanmar, com ventos que ultrapassaram 217 km/h — um dos ciclones mais fortes já registrados na Baía de Bengala. O balanço oficial divulgado pela junta militar birmanesa entre 19 e 20 de maio contabilizou 145 mortos, mas organizações de direitos humanos e ativistas Rohingya estimam que o número real de vítimas entre essa minoria perseguida chegue a 460 pessoas. No campo de deslocados de Bay Dar, um dos mais atingidos, das cerca de 380 casas existentes antes da tempestade, apenas seis permaneceram de pé.
Do outro lado da fronteira, o resultado foi radicalmente diferente. Bangladesh evacuou mais de 700 mil pessoas de áreas costeiras baixas antes da chegada do ciclone, resultado de um sistema de alerta antecipado construído ao longo de décadas que reduziu drasticamente o número de mortos no país. Em Myanmar, porém, a junta militar restringiu o acesso de equipes humanitárias internacionais às áreas mais atingidas e, segundo relatos de moradores e organizações como a Free Rohingya Coalition, não garantiu vagas suficientes em abrigos para a população Rohingya — apátrida e sem direitos plenos de cidadania no país. “O governo e ONGs nos avisaram com antecedência, mas não havia espaço suficiente”, relatou um sobrevivente Rohingya de 25 anos à Radio Free Asia. Maung Sein, morador de Bay Dar, perdeu a esposa grávida de cinco meses, o filho, a sogra e o cunhado na tempestade.
Para gestores de defesa civil municipal no Brasil, o caso Mocha é um lembrete duro de que a eficácia de um sistema de alerta antecipado não se mede apenas pela sua existência técnica, mas pela sua capacidade de alcançar — e proteger — as populações mais vulneráveis de um território. Comunidades em situação de informalidade habitacional, migrantes, populações em situação de rua ou grupos historicamente marginalizados tendem a ser os últimos a receber alertas, os últimos a ter acesso a abrigos adequados e, com frequência, os primeiros a serem sub-contados nos balanços oficiais após o desastre. Um plano de contingência municipal que não mapeia explicitamente essas populações de maior vulnerabilidade social corre o risco de repetir, em escala menor, a mesma lacuna que separou o resultado de Bangladesh do resultado em Rakhine.
“‘Nunca vi ondas tão grandes na minha vida inteira. Uma onda gigante levou minha família’ — Maung Sein, morador de Bay Dar, Myanmar, que perdeu a esposa grávida, o filho, a sogra e o cunhado no Ciclone Mocha”
Fontes
- CBS News — “Cyclone Mocha slams Myanmar and Bangladesh, but few deaths reported thanks to mass-evacuations” — 15/05/2023 — https://www.cbsnews.com/amp/news/cyclone-mocha-myanmar-bangladesh-few-deaths-mass-evacuations
- Radio Free Asia — “Death toll seen rising in Myanmar’s Rakhine state in aftermath of Cyclone Mocha” — 17/05/2023 — https://www.rfa.org/english/news/myanmar/mocha-rakhine-rohingya-05172023160638.html
- Axios — “Official death toll in Myanmar from Cyclone Mocha jumps to at least 145” — 19/05/2023 — https://www.axios.com/2023/05/19/myanmar-rakhine-cycline-mocha-death-toll