36 dias no ar: o ciclone mais duradouro já registrado devastou três países da África Austral
Foto: Eldson Chagara/Reuters — da matéria da Al Jazeera Formado no início de fevereiro de 2023 no Oceano Índico, o Ciclone Freddy se tornou o ciclone tropical mais duradouro já registrado na história, com 36 a 37 dias de existência confirmados pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). Depois de um primeiro landfall em Madagascar em 21 […]
11 MAR 2023

Foto: Eldson Chagara/Reuters — da matéria da Al Jazeera
Formado no início de fevereiro de 2023 no Oceano Índico, o Ciclone Freddy se tornou o ciclone tropical mais duradouro já registrado na história, com 36 a 37 dias de existência confirmados pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). Depois de um primeiro landfall em Madagascar em 21 de fevereiro e uma passagem inicial por Moçambique no fim do mês, o ciclone fez um segundo e mais devastador landfall em Moçambique em 11 de março de 2023, atingindo em seguida, com força ainda maior, a região de Blantyre, no Malawi. Nos dias seguintes, o balanço de mortos disparou: 200 mortos em 16 de março, mais de 300 em 17 de março e, em 19 de março, um total consolidado de 522 mortos entre os três países — 438 no Malawi, 67 em Moçambique e 17 em Madagascar —, além de 80 mil desabrigados. A contagem seguiu subindo nas semanas seguintes, chegando a mais de 670 confirmados e a estimativas de mais de 1.200 mortos só no Malawi até o fim de março, à medida que equipes de resgate alcançavam áreas montanhosas antes isoladas.
O relato de quem sobreviveu ilustra a velocidade com que a água tomou conta das encostas de Blantyre. Lukia Akimu, sobrevivente de 35 anos internada no hospital Queen Elizabeth, descreveu o momento em que a enxurrada varreu vizinhos: “I saw a lot of water and some people being washed away. Then I do not know what happened.” Já Charles Kalemba, chefe do Departamento de Gestão de Desastres do Malawi, resumiu a dificuldade das buscas nos dias seguintes ao desastre, quando a esperança de encontrar sobreviventes já diminuía a cada hora: “Given the number of days that have passed, the chances of finding people alive are slim.” Paul Turnbull, diretor do Programa Alimentar Mundial no Malawi, reforçou o obstáculo logístico que agravou a crise: “A lot of areas are inaccessible, restricting movement of assessment and humanitarian teams and life-saving supplies.”
O caso do Ciclone Freddy é um retrato cru de como a desigualdade de infraestrutura transforma o mesmo fenômeno climático em tragédias de escala muito diferente. O Malawi, apesar de emitir alertas, tinha capacidade limitada de evacuação em áreas montanhosas isoladas — o que multiplicou o número de mortos por deslizamentos em relação a Madagascar e Moçambique. A ONU usou o episódio para pressionar por investimento global em sistemas de alerta precoce universal até 2027. Para a defesa civil municipal brasileira, a lição é direta: emitir um alerta não é suficiente se a população não tem rota de evacuação testada, abrigo definido e meio de receber a informação a tempo — especialmente em bairros de encosta ou de acesso difícil, onde a diferença entre alerta e evacuação efetiva é o que decide quantas vidas se perdem.
“Given the number of days that have passed, the chances of finding people alive are slim” — Charles Kalemba, chefe de Gestão de Desastres do Malawi”
Fontes
- Al Jazeera — “Cyclone Freddy death toll in southeast Africa surpasses 500” — 19/03/2023 — https://www.aljazeera.com/news/2023/3/19/cyclone-freddy-death-toll-in-southeast-africa-surpasses-500
- Inquirer.net (AFP) — “Survivors in shock as Cyclone Freddy toll passes 400 in Malawi, Mozambique” — 17/03/2023 — https://newsinfo.inquirer.net/1744256/survivors-in-shock-as-cyclone-freddy-toll-passes-400-in-malawi-mozambique
- Inside Climate News — “Southern Africa Bore the Brunt of Cyclone Freddy’s 37-Day Wrath. Recovery Is Far From Over” — 17/03/2023 — https://insideclimatenews.org/news/17032023/southern-africa-bore-the-brunt-of-cyclone-freddys-37-day-wrath-recovery-is-far-from-over/