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Brasil

Sem um “dia do desastre”: como a pior seca em 120 anos matou botos e isolou 630 mil amazonenses sem que ninguém percebesse a tempo

Foto: Paulo Desana/Dabukuri/ISA — da matéria do Instituto Socioambiental Em 16 de outubro de 2023, o Rio Negro atingiu, em Manaus, a marca de 13,59 metros — o menor nível registrado em mais de 120 anos de medições, superando o recorde anterior de 13,63 m estabelecido em 2010. A régua baixa foi o ponto culminante […]

16 OUT 2023
Sem um “dia do desastre”: como a pior seca em 120 anos matou botos e isolou 630 mil amazonenses sem que ninguém percebesse a tempo
Professora indígena atravessa ponte improvisada sobre rio seco na Amazônia

Foto: Paulo Desana/Dabukuri/ISA — da matéria do Instituto Socioambiental

Em 16 de outubro de 2023, o Rio Negro atingiu, em Manaus, a marca de 13,59 metros — o menor nível registrado em mais de 120 anos de medições, superando o recorde anterior de 13,63 m estabelecido em 2010. A régua baixa foi o ponto culminante de uma seca histórica que, ao longo do segundo semestre de 2023, afetou mais de 630 mil pessoas no Amazonas e levou o governo estadual a decretar situação de emergência nos 62 municípios do estado — a totalidade do território amazonense. Sem rios navegáveis, comunidades ribeirinhas inteiras ficaram isoladas de alimentos, água potável e atendimento de saúde, em uma região onde o transporte fluvial é, na prática, a única via de acesso.

O aquecimento extremo das águas dos lagos e igarapés teve um efeito visualmente brutal sobre a fauna: entre setembro e dezembro de 2023, 159 botos-vermelhos e tucuxis foram encontrados mortos no Lago Tefé, com mais 117 registrados em Coari — mortandades associadas ao superaquecimento da água, que em alguns pontos chegou a passar de 39°C. “Sem dúvida nas mudanças climáticas, no aquecimento global”, resumiu Rodolfo Salm, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), sobre a causa da hecatombe. O impacto não ficou restrito ao meio ambiente: a paralisação da economia fluvial fez o Amazonas deixar de arrecadar cerca de R$ 1 bilhão, segundo dado consolidado pelo governo estadual meses depois, evidenciando como um desastre “silencioso” pode corroer as finanças públicas tanto quanto uma enchente ou um terremoto.

A seca amazônica de 2023 é o exemplo mais claro do ano de um tipo de desastre que os planos de contingência municipais brasileiros historicamente ignoram: o desastre de evolução lenta (slow-onset). Diferentemente de uma enchente ou de um ciclone, a estiagem não tem um “dia do desastre” — não há um evento único, fotografável, que dispare de imediato toda a máquina de resposta emergencial. O nível do rio cai centímetro a centímetro ao longo de meses, a atenção midiática se dispersa antes do pico da crise, e a decretação de emergência tende a chegar tarde. Para prefeituras do interior amazônico — em geral pequenas, com baixa capacidade técnica e orçamentos apertados — a lição de governança é direta: planos de contingência precisam prever gatilhos de resposta escalonados por nível de rio e por mês do ano, e não apenas protocolos pensados para o “momento do desastre” que a seca, por definição, não tem.

“‘Sem dúvida nas mudanças climáticas, no aquecimento global’ — Rodolfo Salm, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), sobre a causa da mortandade de mais de 270 botos nos lagos superaquecidos do Amazonas em 2023”

Fontes

  • ClimaInfo — “Em Manaus, Rio Negro atinge o menor nível em mais de 120 anos” — 17/10/2023 — https://climainfo.org.br/2023/10/17/em-manaus-rio-negro-atinge-o-menor-nivel-em-mais-de-120-anos/
  • ClimaInfo — “Na Amazônia, mais de 100 botos morrem por causa da seca extrema” — 02/10/2023 — https://climainfo.org.br/2023/10/02/na-amazonia-mais-de-100-botos-morrem-por-causa-da-seca-extrema/
  • Instituto Socioambiental — “2023: o ano em que a Amazônia secou” — 2023 — https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/2023-o-ano-em-que-amazonia-secou