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Brasil

O primeiro aviso: o ciclone de junho que antecipou as duas maiores tragédias climáticas da história do Rio Grande do Sul

Foto: Diego Vara/Reuters — da matéria da Al Jazeera Entre a noite de quinta-feira, 15 de junho, e a sexta-feira, 16 de junho de 2023, um ciclone extratropical varreu o Rio Grande do Sul e Santa Catarina com ventos superiores a 100 km/h e chuva em volumes que não se via havia mais de um […]

16 JUN 2023
O primeiro aviso: o ciclone de junho que antecipou as duas maiores tragédias climáticas da história do Rio Grande do Sul
Vista aérea de área alagada em São Leopoldo (RS) após ciclone extratropical

Foto: Diego Vara/Reuters — da matéria da Al Jazeera

Entre a noite de quinta-feira, 15 de junho, e a sexta-feira, 16 de junho de 2023, um ciclone extratropical varreu o Rio Grande do Sul e Santa Catarina com ventos superiores a 100 km/h e chuva em volumes que não se via havia mais de um século. Porto Alegre registrou o maior acumulado de chuva em 24 horas para o mês de junho em 107 anos — 141,6 mm —, enquanto Campo Bom teve 209 mm, o maior junho desde 1984, e São Leopoldo recebeu 246 mm em 18 horas. O balanço subiu dia a dia: de 1 morto por choque elétrico no dia do temporal para 11 confirmados em 17 de junho e, no fechamento consolidado, 18 mortos — 16 no Rio Grande do Sul e 2 em Santa Catarina. Cerca de 2 milhões de pessoas foram afetadas pela falta de energia elétrica e por danos estruturais; 41 municípios gaúchos foram atendidos pela Defesa Civil estadual, com Caraá descrito como o epicentro da destruição.

O aviso mais dramático veio de Maquiné, pequena cidade da encosta da serra gaúcha, onde o prefeito João Marcos Bassani percorreu ruas alagadas convocando moradores a deixar suas casas: “Saiam das suas casas! Está enchendo! O centro da cidade nunca esteve assim, pelo menos na história recente.” A meteorologista Estael Sias, da MetSul, confirmou horas depois a magnitude do episódio: “Para o mês de junho foi o maior acumulado de chuva em 24h na capital gaúcha dos últimos 107 anos.” Em São Leopoldo, moradores relataram resgates de bote dentro de casas com água na altura da cintura, enquanto em Caraá autoridades locais falavam em reconstruir a cidade “do zero” diante de perdas classificadas como irreparáveis.

O ciclone de junho de 2023 não foi um evento isolado — foi o primeiro de uma sequência que se agravaria de forma dramática no mesmo estado: em setembro de 2023, um novo ciclone extratropical mataria 47 pessoas no Rio Grande do Sul, e entre abril e maio de 2024 as enchentes históricas que inundaram Porto Alegre e boa parte da região metropolitana deixariam mais de 180 mortos. A pergunta de governança que fica para prefeituras gaúchas e para qualquer município sujeito a ciclones extratropicais é concreta: os alertas meteorológicos antecipados de junho — que permitiram à MetSul prever o recorde histórico horas antes do pico — foram de fato incorporados a planos de contingência municipais, com rotas de evacuação e protocolos formais, ou a resposta seguiu dependendo de prefeitos percorrendo ruas de carro ou a pé para avisar a população, como em Maquiné? Um episódio recorde deveria ser tratado como o piso de um novo cenário de planejamento, não como uma anomalia isolada — e é exatamente esse ajuste que os desastres seguintes, meses depois, cobrariam do estado a um custo muito mais alto.

“‘Saiam das suas casas! Está enchendo! O centro da cidade nunca esteve assim, pelo menos na história recente.’ — João Marcos Bassani, prefeito de Maquiné (RS), alertando moradores em meio à pior enchente que a cidade registrava em décadas”

Fontes

  • CNN Brasil — “Sobe para 11 o número de mortos por ciclone no RS” — 17/06/2023 — https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sobe-o-numero-de-mortos-por-ciclone-no-rs/
  • Al Jazeera — “Cyclone leaves 13 dead, thousands displaced in Brazil” — 19/06/2023 — https://www.aljazeera.com/gallery/2023/6/19/cyclone-leaves-13-dead-thousands-displaced-in-brazil
  • MetSul — “O desastre do ciclone de junho de 2023 contado nas capas dos jornais” — https://metsul.com/o-desastre-do-ciclone-de-junho-de-2023-contado-nas-capas-dos-jornais/