Quarta grande enchente em 18 meses expõe limite da reconstrução em áreas de risco na Austrália
Foto: Muhammad Farooq/AFP — da matéria da Al Jazeera Chuvas torrenciais atingiram o sudoeste de Sydney e o litoral de Nova Gales do Sul, da região de Newcastle até Batemans Bay, entre 2 e 3 de julho de 2022, com o pico das ordens de evacuação registrado no domingo, dia 3. Segundo a CNN Brasil, […]
03 JUL 2022

Foto: Muhammad Farooq/AFP — da matéria da Al Jazeera
Chuvas torrenciais atingiram o sudoeste de Sydney e o litoral de Nova Gales do Sul, da região de Newcastle até Batemans Bay, entre 2 e 3 de julho de 2022, com o pico das ordens de evacuação registrado no domingo, dia 3. Segundo a CNN Brasil, milhares de pessoas foram instruídas a deixar suas casas, e 29 pessoas precisaram ser resgatadas das águas já no dia 2 de julho. Muitas áreas registraram mais de 200mm de chuva, com picos de até 350mm em alguns pontos, segundo reportagem da NPR. Diante da gravidade, o governo federal australiano mobilizou 100 soldados e dois helicópteros para apoiar resgates e distribuir sacos de areia. O mais alarmante, porém, não foi um recorde isolado de chuva: foi a repetição. Tratava-se da quarta grande enchente a atingir a mesma região em apenas 18 meses, alimentando entre autoridades e especialistas o debate sobre o que já vinha sendo chamado de “novo normal” climático australiano.
Steph Cooke, ministra de Serviços de Emergência de Nova Gales do Sul, resumiu a multiplicidade de frentes de risco enfrentadas simultaneamente pelo estado: “Agora estamos enfrentando perigos em várias frentes — inundações repentinas, inundações ribeirinhas e erosão costeira.” Ela classificou o momento sem meias palavras: “Esta é uma situação de emergência com risco de vida.” Carlene York, comissária do State Emergency Service (o equivalente australiano à Defesa Civil estadual), descreveu a saturação da infraestrutura de contenção que já vinha sendo testada por enchentes anteriores naquele mesmo ano: “Não há espaço para a água permanecer nas barragens. Elas estão começando a vazar.” O ministro da Defesa da Austrália, Richard Marles, anunciou o envio dos 100 soldados e dos dois helicópteros como reforço emergencial às equipes estaduais de resgate.
Para gestores municipais brasileiros, o episódio de Sydney oferece um alerta específico: reconstruir da mesma forma, no mesmo lugar, depois de cada enchente, tem um limite — e esse limite fica evidente quando o intervalo entre eventos extremos encolhe de décadas para meses. A quarta enchente em 18 meses forçou a Austrália a debater publicamente a “realocação planejada” (managed retreat) de comunidades inteiras instaladas em áreas de risco recorrente — uma discussão ainda incipiente no Brasil, mas cada vez mais urgente para municípios com histórico de enchentes repetidas, como os do litoral norte fluminense, da Baixada Santista ou de bacias urbanas do Nordeste. Mapear a recorrência, e não apenas a magnitude, de cada evento é o primeiro passo para decidir onde vale a pena reconstruir e onde é hora de não voltar.
“Não há espaço para a água permanecer nas barragens. Elas estão começando a vazar — Carlene York, comissária do State Emergency Service de Nova Gales do Sul”
Fontes
- CNN Brasil — “Milhares são instruídos a evacuar Sydney, na Austrália, após fortes chuvas” — julho de 2022 — https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/milhares-sao-instruidos-a-evacuar-sydney-na-australia-apos-fortes-chuvas/
- NPR — “A meter of rain triggers evacuation warnings in Australia’s largest city” — 04/07/2022 — https://www.npr.org/2022/07/04/1109658566/a-meter-of-rain-triggers-evacuation-warnings-in-australias-largest-city
- Al Jazeera — “In pictures: Heavy rains and floods as thousands flee homes in Sydney” — 04/07/2022 — https://www.aljazeera.com/gallery/2022/7/4/photos-heavy-rains-and-floods-as-thousands-flee-homes-in-sydney
- Observatório do Clima — “Enchentes, mortes e desalojados: o ‘novo normal’ na Austrália” — https://www.oc.eco.br/enchentes-mortes-e-desalojados-o-novo-normal-na-australia/