85% da cidade debaixo d’água: como Muçum se tornou o símbolo do pior desastre climático já registrado no Rio Grande do Sul até 2023
Foto: Diego Vara/Reuters — da matéria da Al Jazeera Um ciclone extratropical atingiu o Rio Grande do Sul entre 4 e 6 de setembro de 2023, despejando volumes recordes de chuva sobre o Vale do Taquari e provocando o desastre climático mais mortal já registrado no estado até então. O epicentro da tragédia foi o […]
05 SET 2023

Foto: Diego Vara/Reuters — da matéria da Al Jazeera
Um ciclone extratropical atingiu o Rio Grande do Sul entre 4 e 6 de setembro de 2023, despejando volumes recordes de chuva sobre o Vale do Taquari e provocando o desastre climático mais mortal já registrado no estado até então. O epicentro da tragédia foi o município de Muçum, onde 85% da área urbana ficou submersa pela cheia repentina do rio Taquari. Das 16 mortes confirmadas apenas na cidade, 15 ocorreram dentro de uma única residência, onde uma família inteira foi surpreendida pela força da água. No balanço estadual, o número de mortos variou entre 47 e 54 conforme o boletim, e entre 354 mil e 360 mil pessoas foram atingidas de alguma forma — entre desabrigados, desalojados e feridos. Em 6 de setembro, o governo gaúcho decretou situação de calamidade pública em 80 municípios.
Diante da escala da destruição, o governador Eduardo Leite prometeu que “não faltarão recursos do governo do Estado para a reconstrução” do Vale do Taquari, uma promessa reforçada em nota conjunta por ministros do governo federal na mesma semana. Seis dias depois da tragédia, em 12 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a liberação de R$ 600 milhões do FGTS para cerca de 354 mil trabalhadores atingidos pelas enchentes — um dos maiores aportes emergenciais federais para um desastre climático estadual até aquele momento. Ainda assim, a reconstrução em Muçum avançou lentamente, e a cidade voltaria a ser castigada por cheias graves outras duas vezes até 2024, revelando que o dinheiro liberado não resolveu a questão estrutural por trás da tragédia: a ocupação histórica das margens do rio Taquari por bairros residenciais inteiros.
Para gestores municipais de defesa civil em todo o Brasil, Muçum se tornaria, nos anos seguintes, o principal estudo de caso nacional sobre o dilema entre reconstruir no mesmo lugar ou realocar definitivamente populações que vivem em áreas de risco recorrente às margens de rios. O padrão de ocupação que levou 15 pessoas de uma mesma casa a morrer em poucas horas — moradias antigas, consolidadas há décadas em cotas de inundação conhecidas, sem sistema de alerta precoce municipal capaz de antecipar uma cheia daquela magnitude — se repetiria, de forma ainda mais grave, na catástrofe que atingiria todo o Rio Grande do Sul em maio de 2024. O episódio de setembro de 2023 foi, em retrospecto, o aviso que testou — e encontrou insuficiente — a capacidade de resposta e de planejamento de longo prazo da defesa civil gaúcha.
“‘Não faltarão recursos do governo do Estado para a reconstrução’ — Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, prometendo apoio a um Vale do Taquari que, apesar do compromisso, seguiria vulnerável a novas cheias nos dois anos seguintes”
Fontes
- Agência Brasil — “Ciclone deixa 22 mortos e causa enchentes na Região Sul” — 05/09/2023 — https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-09/ciclone-deixa-22-mortos-e-causa-enchentes-na-regiao-sul
- Al Jazeera — “Fierce storm in southern Brazil kills at least 27” — 06/09/2023 — https://www.aljazeera.com/gallery/2023/9/6/fierce-storm-in-southern-brazil-kills-at-least-27
- Brasil de Fato — “Sobe para 21 o número de mortes no Rio Grande do Sul devido ao ciclone extratropical” — 05/09/2023 — https://www.brasildefato.com.br/2023/09/05/sobe-para-21-o-numero-de-mortes-no-rio-grande-do-sul-devido-ao-ciclone-extratropical/