52,9°C em Nova Délhi: a onda de calor que a ciência já classificou como “impossível sem mudança climática”
Foto: Ed Connor/Shutterstock.com — da matéria do Olhar Digital Em 29 de maio de 2024, o termômetro da estação de Mungeshpur, na periferia de Nova Délhi, capital da Índia, registrou 52,9°C — o valor mais alto já medido no país. O recorde foi o ápice de uma onda de calor persistente que castigou o sul […]
29 MAI 2024

Foto: Ed Connor/Shutterstock.com — da matéria do Olhar Digital
Em 29 de maio de 2024, o termômetro da estação de Mungeshpur, na periferia de Nova Délhi, capital da Índia, registrou 52,9°C — o valor mais alto já medido no país. O recorde foi o ápice de uma onda de calor persistente que castigou o sul e o sudeste da Ásia desde abril: no Paquistão, vizinho da Índia, as temperaturas também superaram 52°C; na Tailândia, os termômetros bateram cerca de 50°C semanas antes, e o calor extremo já havia matado ao menos 30 pessoas no país. Na Índia, onde o histórico de mortes por calor desde 1992 ultrapassa 24 mil, o governo de Nova Délhi decretou racionamento de água e fechou escolas para proteger a população mais vulnerável enquanto incêndios florestais se espalhavam pela região.
O que diferencia este episódio de outras ondas de calor é o veredito da ciência sobre sua origem. Um estudo do World Weather Attribution — rede internacional de cientistas que calcula a probabilidade de eventos climáticos extremos ocorrerem com e sem a interferência humana no clima — concluiu que essa onda de calor teria sido praticamente impossível sem a mudança climática antropogênica, batizando-a de “onda monstro de calor”. A conclusão reforça um padrão observado em episódios extremos ao redor do mundo: recordes de temperatura que antes eram estatisticamente raríssimos passaram a se repetir com frequência crescente à medida que a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera aumenta, tornando o calor extremo — e não apenas chuvas e furacões — um dos principais riscos climáticos monitorados por agências meteorológicas em todo o mundo.
Para municípios brasileiros, o episódio de Nova Délhi é um lembrete de que o calor extremo é um risco silencioso, mas crescente, de defesa civil — e não apenas um desconforto passageiro. Diferentemente de uma enchente ou de um deslizamento, uma onda de calor não deixa escombros visíveis, mas pode matar por insolação, desidratação e agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias, sobretudo entre idosos, crianças e moradores de rua. Cidades brasileiras já registram recordes de temperatura ano após ano, e poucos municípios possuem planos de contingência específicos para ondas de calor — com protocolos de alerta, abertura de pontos de hidratação e climatização, e comunicação direcionada a grupos vulneráveis. O caso indiano mostra que esperar o recorde histórico acontecer para agir é tarde demais: sistemas de alerta precoce para calor extremo deveriam integrar o mesmo planejamento municipal hoje dedicado a chuvas e deslizamentos.
“A onda de calor que atingiu a Ásia em abril e maio de 2024 teria sido praticamente impossível sem a mudança climática causada pela ação humana” — conclusão do estudo de atribuição climática do World Weather Attribution sobre o episódio que levou Nova Délhi a 52,9°C.”
Fontes
- Olhar Digital — “Onda de calor na Ásia: termômetros ultrapassam os 52ºC na Índia” — 30/05/2024 — https://olhardigital.com.br/2024/05/30/ciencia-e-espaco/onda-de-calor-na-asia-termometros-ultrapassam-os-52oc-na-india/
- IHU/Unisinos — “Onda ‘monstro’ de calor na Ásia teria sido impossível sem mudanças climáticas” — 2024 — https://ihu.unisinos.br/categorias/639499-onda-monstro-de-calor-na-asia-teria-sido-impossivel-sem-mudancas-climaticas